Fotos: J. A. Siqueira
No alto
de uma rocha, Quiabentia pelodaserra, a terceira espécie de cacto do gênero
Quiabentia foi encontrada após mais de um século desde o último registro de uma
planta desse gênero.
Nativo da
Caatinga, esse cacto descoberto agora possui caules finos, pequenas folhas,
flores brancas e longas e seiva com odor acre.
Quiabentiapelodaserra
foi descoberta pelo botânico José Alves Siqueira, professor do Colegiado de
Ciências Biológicas da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf),
em um afloramento de calcário da Formação Bambuí, uma área de caatinga na divisa
entre os municípios de Jussara, Central e Itaguaçu, no centro-norte do estado
da Bahia.
Nas
trilhas de difícil acesso, o olhar do professor foi atraído pelas flores
brancas da Q. pelodaserra, que se abrem ao anoitecer, ficam pendentes após a
antese – período em que a flor se abre e atinge a maturidade reprodutiva, e
possuem uma grande câmara de néctar. Especialista em cactos e bromélias,
Siqueira nunca tinha se deparado com aquela espécie na literatura nem em suas
andanças pelo sertão e percebeu que havia encontrado algo especial. A
singularidade da planta foi atestada pelos pesquisadores Daniela Zappi e Nigel
Taylor, botânicos com reconhecimento internacional por estudos sobre a família
Cactaceae, os cactos.
Com a
colaboração dos pesquisadores, a nova espécie foi descrita e recebeu o nome de
Quiabentia pelodaserra. O resultado desse trabalho gerou o artigo “An
extraordinary third species of Quiabentia Britton & Rose
(Cactaceae-Opuntioideae-Cylindropuntieae), from the Caatinga of Northeastern
Brazil", publicado na revista científica Bradleya, periódico anual da
British Cactus and Succulent Society (BCSS). A nova espécie foi batizada com o
nome que os moradores da região próxima ao afloramento usam para se referir à
planta: “Pelo da Serra”, expressão relacionada aos espinhos finos que se
prendem às roupas e à pele. Dessa forma, os pesquisadores preservam a expressão
já utilizada pela comunidade e contribuem para a valorização do conhecimento
local.
Segundo
Siqueira, Q. pelodaserra apresenta características distintas das observadas nas
outras duas espécies já conhecidas do gênero Quiabentia zehntneri, descrita em
1919, e Quiabentia verticillata, descrita em 1923. Ambas possuem flores róseas,
diurnas e polinização por abelhas e beija-flores. O pesquisador explica que a
identificação de uma nova espécie depende de várias características
morfológicas, que inclui a análise de um conjunto de elementos, especialmente
das estruturas reprodutivas. “A diferença entre as espécies está documentada
principalmente nas partes reprodutivas: flor, fruto e semente”, diz.
A nova
espécie mal foi descoberta e já está classificada na categoria Criticamente em
Perigo (CR), que indica risco extremamente elevado de extinção na natureza.
Típica do distrito biogeográfico de Irecê, a planta foi registrada, até o
momento, em apenas uma localidade, com área de distribuição estimada em 72
quilômetros quadrados. Seu habitat sofre pressão da expansão agrícola e urbana,
da mineração de calcário, da abertura de estradas e do sobrepastoreio por
ovinos. A população identificada está separada por cerca de 300 quilômetros da
ocorrência mais próxima da espécie Quiabentia zehntneri.
Atualmente,
o botânico mantém duas amostras da Q. pelodaserra em cultivo no Centro de
Referência para Recuperação de Áreas Degradadas das Caatingas (Crad), da
Univasf, no Campus Ciências Agrárias (CCA), em Petrolina (PE). O cultivo é uma
estratégia de conservação ex situ, que consiste na conservação do germoplasma
fora do habitat natural das espécies, para futura reintrodução da natureza.
Os
pesquisadores acreditam que a polinização da espécie possa ocorrer por meio de
morcegos, devido às características morfológicas da flor e ao comportamento
floral. No entanto, ainda não há registros diretos das visitas desses mamíferos
voadores à Q. pelodaserra. Se a hipótese for confirmada, a associação poderá
representar o primeiro registro conhecido de polinização por morcegos em cactos
do grupo dos opuntioides.
Para dar
continuidade à pesquisa, o docente considera fundamental identificar os
polinizadores da planta e desenvolver mecanismos para sua conservação. “O
grande desafio agora é como conservar esse tesouro da Caatinga”, afirma.
Segundo Siqueira, será necessário estabelecer estratégias de conservação em
parceria com o poder público e com o envolvimento das comunidades locais.
A
descoberta da nova espécie de cacto ocorreu em 2025, durante o pós-doutorado de
Siqueira, realizado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq),
da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba (SP). Durante um ano, o
docente realizou expedições e fotografou plantas em diversas paisagens da
Caatinga para a elaboração do livro “Guia das Plantas da Caatinga” que será
publicado em breve, em parceria com o professor Vinicius Castro Souza, da
Esalq/USP.
Para o
professor da Univasf, seguir a intuição e desenvolver atenção sensorial são
atitudes essenciais nesse tipo de investigação. “Tem gente que passa, vê, mas
não percebe”, reflete. O acesso ao local onde a espécie foi encontrada era
difícil, devido à presença de rochas muito pontiagudas. “Nenhum pesquisador
havia coletado plantas ali. Eu fui a primeira pessoa a percorrer esse sítio
rupestre, como botânico”, conta Siqueira.
O docente destaca também que a descoberta de que se tratava de uma nova espécie e a sua descrição só foram possíveis graças à colaboração entre pesquisadores. “A ciência é feita de forma coletiva”, afirma Siqueira. Para ele, o avanço da ciência depende da construção de redes de colaboração e da troca de conhecimentos entre cientistas.
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