PRESIDENTE PINÓQUIO: Lula já contou três histórias diferentes sobre a mesma caneta da posse

Por: Madeleine Lacsko
Colunista do UOL

O jornalismo brasileiro anda em polvorosa atrás da história da caneta da posse, contada - como sempre - de forma impecável por Lula. O presidente é, na minha opinião, nosso maior orador político. Além disso, é exímio contador de "causos". Talvez eu me lembre das três histórias fantásticas e diferentes sobre a mesma caneta porque eu gosto demais desses "causos" que os políticos contam. Meu professor de jornalismo da USP, o ilustre estrategista político Gaudêncio Torquato, os coleciona e apelida de "porandubas!.

Na última posse, muita gente alardeou que Lula repetiu a história da caneta que havia contado ao então presidente do Senado, Ramez Tebet, em 2003. Eu fiquei revoltadíssima porque aquela história era ainda mais fantástica que a de agora. Na versão 2023, Lula disse que ganhou a caneta de um eleitor do Piauí num comício em 1989. Este ano, Lula disse que é com essa caneta que queria ter assinado em 2003, mas ela estava perdida e então foi usada a do presidente do Senado. Mais para frente volto ao que ele realmente disse em 2003.

Agora toda a mídia está atrás do piauiense Fernando Menezes, o comprador original da caneta. Até ontem anônimo, ele virou fonte da imprensa para confirmar se comprou ou não e se deu ou não para Lula. Emocionado com a homenagem, ele confirmou tudo. Teve mais, Lula fez uma ligação de vídeo e mostrou a caneta na tela para que ele confirmasse se é ou não a caneta que comprou. Ele confirmou e relatou à reportagem do UOL. "Eu vi a caneta de perto, no telefone, era a caneta que eu comprei. [...] Cheguei em um boteco, tinha a caneta pendurada em preta, vermelha e azul. Eu não tinha dinheiro, só dava para comprar uma azul e uma preta. Tinha a cor, mas só escrevia azul. Tinha cabo vermelho.

Eu realmente acredito que ele esteja convencido de que a caneta vista no vídeo é efetivamente a comprada em 1989 num bar. Difícil é saber se ele seria ou não capaz de lembrar com tantos detalhes, pode ser que sim ou que não. Colecionadores de canetas descartam completamente a possibilidade de uma peça, mesmo que fosse de luxo, ficar guardada por 30 anos e voltar a funcionar. Quem sabe, Lula ficou tão feliz de achar que mandou reformar a caneta, né? A reportagem do UOL aguarda até agora uma explicação da assessoria.

Entendidos em caneta de luxo, no entanto, dizem que a peça não é de bar. Trata-se da Montblanc Writers Edition Fitzgerald, com detalhes em outro e prata. A esferográfica, como a usada por Lula, custa hoje cerca de R$ 7,5 mil. A versão é mais parecida com a segunda história que Lula contou sobre a caneta, em discurso no velório de Ramez Tebet, em Três Lagoas, no ano de 2010. "Eu ganhei uma caneta, uma Mont Blanc bonita e eu falei: Essa caneta vai ser a caneta da minha posse. Só que eu perdi em 89, e a caneta ficou guardada. (...) Finalmente, em 2002, eu ganho as eleições, vou tomar posse, qual não é a minha surpresa, eu esqueci minha caneta. A caneta que esperou 12 anos, eu esqueci .

E para tomar posse, eu assinei a minha posse com uma caneta que que o então presidente do Senado, Ramez Tebet, me deu.", disse. A única discrepância com a realidade é que esse modelo de Mont Blanc foi lançado em 2002, portanto não existia em 1989.

Agora você vai precisar concordar comigo que a versão da posse de 2003 é, sem sombra de dúvidas, a melhor de todas. Foi registrada pelo jornal Folha de S. Paulo. Em 29 de novembro de 2002, Lula recebeu uma romaria petista com presentes que iam de caixa de charutos assinada por Fidel Castro a camisa de time autografada.

Luiz Eduardo Greenhalgh deu a ele uma caneta que teria sido encontrada no bolso do líder metalúrgico Santo Dias, assassinado pela polícia de São Paulo numa greve em 1979. Teria sido dada a ele pela viúva, Ana, em 1980, tendo a marca de uma das balas. Essa é a caneta que, na posse em 2003, Lula disse ter esquecido.

Não é possível que as três histórias sobre a mesma caneta sejam verdadeiras. Mas as três, juntas, confirmam uma grande verdade: símbolos são muito mais importantes para o Brasil do que fatos.

Texto publicado originalmente pela Uol


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