Relatos
feitos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master,
apontam que ele liberou R$ 30 milhões para um documentário sobre o
presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT). Em troca, ele diz que teria acesso aos cofres dos fundos de
pensão de servidores federais.
A
informação está em áudio publicado pela Revista Veja nesta sexta-feira (9/10).
Segundo as mensagens, Vorcaro teria se articulado com João Vaccari Neto,
ex-tesoureiro do PT, para combinar um pagamento de cerca de R$ 30 milhões em
dinheiro vivo ao Instituto Lula, dirigido por Paulo Okamotto.
Os
detalhes foram encaminhados à Procuradoria-Geral da República (PGR), que
decidiu não dar andamento ao caso sob a justificativa de que as informações
apresentadas careciam de comprovação material, apontando a ausência de
elementos probatórios consistentes acerca dos pagamentos relatados.
Em
resposta à Procuradoria, a defesa de Vorcaro teria argumentado que o cliente
dispõe de robustos meios de prova. Entre os materiais citados pelos advogados,
estão capturas de tela e mensagens de WhatsApp, registros de identificação das
pessoas responsáveis por retirar o dinheiro em espécie, além de um detalhamento
com as rotas e os locais utilizados na operação.
Além dos
R$ 30 milhões, ainda segundo a revista, Vorcaro teria dito que Vaccari exigiu
uma taxa de 10% de tudo o que o Master captasse nos fundos de Previdência da
Caixa, do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios. A divisão seria: R$ 1
bilhão para o PT e R$ 9 bilhões para Vorcaro.
Leia a
transcrição de uma parte do áudio de Vorcaro:
“…Banco
do Brasil, a gente estruturou isso com ele. O Augusto adianta ali para o
Okamoto, Instituto Lula. E aí tem o negócio do Lula. O filme do Lula eu
coloquei acho que até mais, eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por
fora. Do Lula foi errado. O do Flávio não foi porque pediu patrocínio”.
Após a
publicação da matéria, a PGR se manifestou por nota e afirmou que não recebeu
depoimento oral de Vorcaro. Leia a íntegra:
“A
Procuradoria-Geral da República (PGR) esclarece que as tratativas de
colaboração premiada envolvendo o senhor Daniel Vorcaro foram sempre mediadas
por advogados contratados pelo investigado, como devido.
Todas
as propostas formalizadas pela defesa foram recebidas na forma como livremente
elaboradas por ela, sem juízo nem recusas prévias. Não houve interlocução
direta do senhor Vorcaro com qualquer representante da PGR.
Não
houve depoimento oral do sr. Vorcaro, justamente por conta da rejeição da
proposta, cujos motivos foram expostos à defesa. A Procuradoria-Geral da
República respeita o sigilo que se impõe, por lei, ao procedimento de
colaboração premiada havido.”
Também
em nota, a Polícia Federal afirma que Vorcaro jamais prestou depoimento com o
teor da publicação da Veja. Confira:
“A
Polícia Federal esclarece, em relação à reportagem intitulada ‘Vorcaro conta
que liberou dinheiro para filme sobre Lula por negócios no governo’, publicada
pela Revista Veja nesta sexta-feira (9/10), que Daniel Vorcaro não prestou
depoimento com o teor relatado na matéria, tampouco entregou à instituição
anexos, documentos ou informações com o conteúdo ali descrito.
As
propostas de colaboração premiada que foram apresentadas à PF pela defesa do
investigado não foram acolhidas em razão do não atendimento aos requisitos
legais, conforme decisão fundamentada de conhecimento da defesa.
Por
fim, a Polícia Federal informa que recebeu, nesta sexta-feira (9/10), notícia
crime com pedido de providências urgentes para apuração de fatos relacionadas à
publicação mencionada. O expediente foi encaminhado à área técnica para adoção
das providências de Polícia Judiciária”.
PT se
defende
Em áudio
enviado à militância do PT, o presidente do partido, Edinho Silva, rebateu as
supostas revelações de Vorcaro. “Ela nunca foi aceita como delação, nem pela
Polícia Federal, tampouco pelo Ministério Público. Porque ela é uma declaração
claramente com viés político. Portanto, ela não tem base material alguma, não
tem prova nenhuma”, afirmou.
Segundo
ele, as acusações do dono do Banco Master não foram aceitas. “Ele faz acusações
levianas, sem provas, contra a campanha de Lula, tentando envolver lideranças
na nossa campanha, e claramente protege o Flávio Bolsonaro. O Flávio
[financiamento do Dark Horse] tem, sim, materialidade”, disse.
A
articulação
Segundo a
Veja, a aproximação com o PT foi articulada pelo então sócio de Vorcaro e CEO
do Master, Augusto Lima, com intermediação do então
líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).
O senador
foi um dos alvos da 9ª fase da Operação Compliance Zero em junho de 2026, sob
suspeita de receber vantagens indevidas e uso de aeronaves do grupo. A
Polícia Federal apreendeu dinheiro em espécie em endereços ligados a ele.
Mordidas
Ainda
segundo a reportagem, Vorcaro acusa o então ministro da Secretaria de Relações
Institucionais, Alexandre Padilha, seu secretário-executivo, Olavo Noleto, e
dois operadores vinculados ao grupo de atuarem diretamente em um suposto
esquema de corrupção.
De
acordo com o relato, entre o final de 2023 e o início de 2024, foi estruturada
uma equipe interna no Banco Master voltada à captação institucional junto a
novos produtos financeiros por meio dos fundos de pensão estatais.
O
banqueiro afirma que, por causa da aproximação com o governo federal, passou a
receber exigências de propina, descritas por ele como “as mordidas”,
solicitadas por políticos e por emissários ligados a eles.
Diante
disso, o Banco Master teria intensificado a movimentação comercial ao longo do
primeiro semestre de 2024 para negociar diretamente com os presidentes das
entidades de Previdência.
Nesse
processo de aproximação, um novo personagem surge na articulação: um operador
identificado como “Júlio”, apontado como emissário com livre trânsito e acesso
facilitado ao gabinete de Padilha no Palácio do Planalto, que teria atuado como
intermediário nos contatos com os dirigentes dos fundos de pensão.
Encontros
O
documentário sobre Lula seria produzido no exterior, com depoimentos de aliados
do presidente, como o advogado Walfrido Warde. Haveria ainda outro valor, não
detalhado, pago diretamente à instituição.
A PGR, no
entanto, teria recusado a proposta que envolveria Lula alegando “falta de
provas”, pois os pagamentos teriam sido feitos em espécie.
A
defesa
Procurado
pelo Metrópoles, o advogado Daniel Bialski, que atualmente representa o
banqueiro, afirmou que não há depoimentos recentes de Vorcaro sobre esse
assunto.
Fonte: Metrópoles
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