No universo do lulopetismo, nada se cria, pouco se transforma e quase tudo permanece conservado há quatro décadas.
Por Taciano Medrado*
Olá, caríssimos leitores,
Há uma máxima atribuída ao químico francês Antoine Lavoisier que atravessou os séculos: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Parafraseando essa conhecida lei da conservação da matéria, poderíamos formular uma provocação política: no universo do lulopetismo, nada se cria, pouco se transforma e quase tudo permanece conservado há quatro décadas.
O lulopetismo, enquanto corrente política construída em torno da liderança de Luiz Inácio Lula da Silva e da trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT), parece ter desenvolvido uma característica peculiar: a capacidade de atravessar gerações sem abandonar os mesmos fundamentos discursivos, ainda que o Brasil tenha mudado profundamente.
Desde a década de 1980, quando o PT surgiu como uma força política que prometia representar os trabalhadores, combater privilégios e promover uma profunda transformação social, o discurso da desigualdade, da luta de classes e da oposição entre ricos e pobres tornou-se uma de suas principais marcas.
Quatro décadas depois, a pergunta que se impõe é: quanto desse projeto original efetivamente se transformou?
O Brasil de hoje é muito diferente daquele de 1980. A tecnologia avançou, a economia se modernizou, a sociedade se digitalizou e novas gerações passaram a enxergar o mundo sob perspectivas distintas. Entretanto, parte significativa da retórica política petista continua recorrendo às mesmas fórmulas: a defesa de um Estado protagonista, a centralidade da figura de Lula e a permanente divisão do debate público entre os que supostamente defendem os interesses populares e aqueles apresentados como seus adversários.
A política da conservação ideológica
O fenômeno mais interessante do lulopetismo talvez não seja sua capacidade de mudar, mas sua habilidade de preservar sua identidade política mesmo diante de circunstâncias que exigiriam revisões profundas.
O discurso de transformação social convive com a permanência de práticas tradicionais de articulação política, alianças com grupos historicamente distantes de sua origem ideológica e uma relação de dependência entre o projeto partidário e a liderança de seu principal personagem.
A contradição merece reflexão: como uma corrente que se apresenta como agente de transformação consegue conservar, por tanto tempo, os mesmos mecanismos de mobilização política?
A resposta pode estar na força de uma narrativa que se retroalimenta. O passado é constantemente convocado para justificar o presente, enquanto as dificuldades atuais são frequentemente explicadas pela herança de governos anteriores, por adversários políticos ou por circunstâncias externas.
Não se trata de negar avanços sociais ocorridos durante governos petistas, tampouco de ignorar responsabilidades de administrações que os sucederam. Trata-se de questionar se um projeto político que permanece dependente das mesmas justificativas consegue oferecer respostas efetivamente novas aos problemas contemporâneos.
Lula: o personagem que se confunde com o projeto
Outro aspecto central dessa teoria é a personalização da política.
Ao longo dos anos, Lula deixou de ser apenas o fundador e principal liderança do PT para se tornar, na percepção de seus apoiadores e críticos, o eixo em torno do qual gravita grande parte da identidade política do partido.
Essa centralidade suscita uma questão legítima: qual será a capacidade de renovação do lulopetismo para além de Lula?
Uma ideologia que se confunde com a trajetória de um único líder enfrenta o desafio de construir sucessores, renovar ideias e apresentar perspectivas que não dependam exclusivamente da memória de suas realizações passadas.
A política não pode ser eternamente uma repetição do passado, sobretudo quando as novas gerações enfrentam desafios que não existiam há quarenta anos.
O Brasil não pode viver eternamente de narrativas
O eleitor brasileiro não precisa escolher entre venerar personagens políticos ou rejeitar integralmente suas trajetórias. Pode, e deve, avaliar resultados, cobrar coerência e questionar promessas, independentemente da legenda partidária.
O problema começa quando a fidelidade ideológica se sobrepõe à capacidade crítica, transformando lideranças em figuras intocáveis e divergências em supostas declarações de guerra política.
Uma democracia amadurece quando o cidadão deixa de ser apenas plateia de discursos e passa a exigir respostas concretas.
Afinal, desenvolvimento econômico, educação de qualidade, segurança pública, saúde eficiente e oportunidades de trabalho não podem permanecer indefinidamente subordinados à disputa entre narrativas partidárias.
A teoria do lulopetismo, portanto, não é uma lei da natureza, mas uma provocação sobre a conservação de um projeto político que atravessou quatro décadas.
Se Lavoisier ensinou que a matéria se transforma, a política deveria ensinar que ideias também precisam evoluir. Quando isso não acontece, a história corre o risco de deixar de ser instrumento de aprendizado para se tornar um roteiro repetido, com personagens conhecidos, discursos reciclados e promessas que insistem em retornar.
Eis a reflexão deste sábado: o Brasil mudou, o mundo mudou, a sociedade mudou. Mas será que o lulopetismo acompanhou essas transformações ou continua tentando governar o presente com as ferramentas ideológicas de um passado que se recusa a passar?
Porque uma nação não pode viver eternamente de memória, muito menos confundir a permanência de uma liderança com a transformação de um país.
A história não é propriedade de partidos, líderes ou ideologias. É patrimônio de um povo que precisa ter liberdade para questionar, comparar e decidir seus próprios caminhos.
Até a próxima reflexão!
Taciano Medrado*
Professor, analista político
Editor-chefe — TMNews do Vale
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