Comitiva de Lula teve pelo menos 73 nomes nominalmente autorizados em registros oficiais e gasta mais de R$ 3,2 milhões em uma semana nos EUA
Há uma pergunta que precisa ser feita ao Brasil: em um país que enfrenta dificuldades fiscais, elevada carga tributária e uma máquina pública cada vez mais cara, até onde pode chegar a conta das viagens oficiais do governo?
A participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, trouxe novamente ao debate público a dimensão dos gastos relacionados à estrutura presidencial no exterior.
Segundo levantamentos publicados a partir de registros oficiais, a hospedagem da comitiva presidencial em Nova York ultrapassou R$ 3,2 milhões em menos de 48 horas. Os valores divulgados somam R$ 3.232.523,55, referentes a reservas em dois hotéis: o Grand Hyatt New York, com R$ 2.217.655,99, e o Park Lane Hotel, com R$ 1.014.867,56.
É importante fazer uma ressalva: esse valor não corresponde à hospedagem do presidente Lula. Conforme informado pelo governo, o presidente ficou na Residência do Representante Permanente do Brasil junto à ONU, onde não houve despesa de hospedagem para o erário. Os gastos dos hotéis referem-se à estrutura de apoio e à delegação que acompanhou o presidente.
Mas há outro número que chama atenção.
Levantamento baseado nas autorizações publicadas no Diário Oficial da União identificou pelo menos 73 pessoas nominalmente autorizadas a viajar para Nova York durante o período da Assembleia Geral. A relação inclui ministros, assessores, servidores e integrantes de diferentes órgãos do governo. O número pode ser ainda maior, já que existem autorizações para servidores do Gabinete Pessoal da Presidência e da Assessoria Especial sem indicação individual da quantidade de funcionários.
E é justamente aí que começa a discussão que interessa ao contribuinte.
Não se questiona a importância da presença do Brasil na ONU. A participação do chefe de Estado brasileiro em uma das principais instâncias diplomáticas do mundo é uma atribuição institucional e faz parte da política externa brasileira. A 81ª Assembleia Geral reuniu representantes dos 193 países-membros das Nações Unidas.
O que se questiona é o tamanho da estrutura e o custo necessário para mantê-la.
Em um país onde milhões de brasileiros precisam administrar o orçamento doméstico com rigor, onde famílias convivem com impostos elevados e onde o próprio governo precisa buscar receitas adicionais para equilibrar suas contas, despesas milionárias com hospedagem oficial merecem transparência, justificativa e fiscalização.
O problema não está simplesmente em gastar. Governar também significa gastar. O problema está em saber se cada gasto público atende ao princípio da razoabilidade e se existe efetivamente uma relação adequada entre custo e necessidade.
O episódio de Nova York mostra, mais uma vez, a necessidade de o cidadão acompanhar não apenas os grandes discursos presidenciais, mas também a fatura que chega depois deles.
É fácil falar em justiça social, combate à pobreza e redução das desigualdades. Mais difícil é demonstrar, na prática, que o dinheiro arrecadado do cidadão está sendo administrado com o mesmo cuidado que uma família brasileira é obrigada a ter para pagar suas contas no fim do mês.
O Brasil não pode ser tratado como se os recursos públicos fossem inesgotáveis.
Cada real gasto pelo governo sai, direta ou indiretamente, do bolso do contribuinte. Por isso, transparência não é favor; é obrigação. E austeridade não deveria ser uma palavra reservada aos discursos de oposição.
O governo Lula 3 precisa explicar ao brasileiro não apenas quanto gastou, mas por que gastou, quem foi beneficiado pelos gastos e se havia alternativas menos dispendiosas.
A democracia não se resume ao voto de quatro em quatro anos. Ela também exige controle social, fiscalização das despesas públicas e cobrança permanente daqueles que administram o dinheiro do cidadão.
Enquanto o governo fala em soberania, justiça social e redução das desigualdades nos palcos internacionais, o brasileiro continua olhando para dentro de casa, fazendo contas e tentando descobrir onde cortar despesas.
É justamente por isso que a pergunta permanece: em um país que precisa controlar seus gastos, por que a gastança oficial parece não ter fim?
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