Penso, logo resisto




Por Percival Puggina*

Por que tudo da direita vira drama e na esquerda nada pega?”

Em minha escrivaninha, entre papéis contendo anotações que não sei quando irei reler, há um pequeno pote metálico, cilíndrico, com seis linhas de furos paralelos. Ele percorreu um longo caminho do design à vitrina onde minha mulher o viu, gostou e comprou. Dentro dele, uma dúzia contada de diferentes canetas, na maioria com tinta seca pelo desuso. Sobre elas, ergue-se um velho lápis de madeira, ponta feita e nunca refeita.

Aquela extremidade aguçada atrai atenção quando sento para escrever. Ela me faz pensar numa época em que pensamento e sofrimento não rimavam toscamente numa mesma frase. Hoje, porém, meu amigo jornalista Júlio Ribeiro convidou-me para seu programa na Rádio +Brasil propondo uma pergunta que se ouve como um gemido de dor: “Por que tudo da direita vira drama e na esquerda nada pega?”

Olho para meu lápis que está ali, conceitual, íntegro, perfeito em conteúdo e forma, símbolo de um tempo no qual escritores escreviam desenhando palavras. Hoje, apertam teclas, digitam. Abandono, então, o lápis e lanço sobre a tela estes pensamentos que julgo responder à pergunta, embora rimem com os sofrimentos que causam.

1. Ninguém se espanta ou surpreende com o que é comum e rotineiro. A história dos governos de esquerda é recheada por sucessivos escândalos que vão das tesourarias aos abusos de poder, sigilos centenários, blindagens e jurisprudências politizadas. É a banalização do mal. Surpreender-se com isso é como se escandalizar com o mercantilismo do Centrão.

2. Numa eleição, parcela expressiva da direita examina os candidatos sob a lente de seus princípios. Corretíssimo. Ante a menor suspeita lançada sobre seu candidato, porém, muitos desses cidadãos se juntam ao coro dos próprios adversários, sem pensar nos danos. “E isso é um erro?”, talvez indague o leitor. Sim! Em pleitos bipolares, se o oponente representar a continuidade do mal banalizado que descrevi acima, esse é um equívoco óbvio, uma irresponsabilidade, cujas más consequências se perpetuarão, no mínimo, por mais quatro anos.

3. Tanto isoladamente quanto em conjunto, as redes sociais não são articuladas, como a palavra “rede” parece sugerir. Ao contrário, são fragmentadas e caóticas. O predomínio da direita nesse espaço, após o impacto de sua estreia na eleição de 2018, é insuficiente para enfrentar a função orgânica da velha imprensa, principalmente quando articulada com o Estado. É por isso que você quase nada assiste ou lê nesses veículos sobre o ativismo judicial, o desastre da Educação em nosso país, a irresponsabilidade dos milhões de omissos em pleitos anteriores, os escândalos proporcionados pelos poderes que se blindam. É longa a lista das matérias congeladas no silêncio dos dispendiosos necrotérios de aluguel junto às redações.

4. As ruidosas redes sociais, com o passar do tempo, disputam espaço no mercado publicitário com a velha mídia. Os dois sistemas se tornaram antagônicos. Se as redes são majoritariamente de direita, a velha imprensa busca parceria e recursos no oficialismo estatal, onde, sublinhe-se, obtém resultados mensuráveis e monetizáveis.

Caríssimos leitores, eu os adverti, de início, sobre pensamentos e sofrimentos. No entanto – e por isso penso e resisto – tudo vale a pena se a alma não é pequena, como aprendi de Fernando Pessoa.

(*) Arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras. Escreve, semanalmente, artigos para vários jornais do Rio Grande do Sul, entre eles Zero Hora, além de escrever o seu próprio blog e em outros websites de expressão nacional, a exemplo do Mídia Sem Máscara, Diário do Poder, Tribuna da Internet. Sua coluna é reproduzida por mais de uma centena de jornais.

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