Caso Janone x Nícolas: Quando o deboche á justiça vira estratégia política

Por que alguns parlamentares parecem acreditar que o mandato lhes dá o direito de transformar tudo em espetáculo?


Por Taciano Medrado*

Olá caríssimos,

Vou começar esse meu texto respondendo ao Deputado André Janones: Não! Janone você não fez os bolsonaristas de idiotas, simulando uma retratação, você foi idiota e desdenhou de uma decisão judicial! vai pagar mais caro!

O episódio protagonizado pelo deputado federal André Janone contra o também deputado federal Nícolas Ferreira ultrapassa os limites de uma simples briga política.

No vídeo divulgado nas redes sociais, Janone afirma que a retratação feita anteriormente em relação a Nícolas teria sido apenas uma espécie de simulação, realizada em cumprimento a uma determinação judicial. E, como se isso já não fosse suficientemente grave, volta aos ataques, aos palavrões e às acusações contra o parlamentar.

Ora, deputado: desde quando uma decisão judicial virou peça de teatro?

Se houve uma determinação da Justiça para que uma retratação fosse publicada, caberia ao parlamentar cumpri-la e, caso discordasse da decisão, recorrer pelos instrumentos jurídicos disponíveis.

É simples.

Não existe democracia sem respeito às regras.

Pode-se discordar da Justiça. Pode-se criticá-la. Pode-se recorrer de uma decisão. Pode-se até defender publicamente que uma sentença foi equivocada.

O que não parece razoável é transformar o cumprimento de uma decisão judicial em motivo de deboche e, logo depois, voltar ao mesmo comportamento que originou a controvérsia.

Isso transmite uma mensagem extremamente perigosa: a de que determinadas decisões podem ser formalmente cumpridas, enquanto sua autoridade é simultaneamente ridicularizada perante milhões de pessoas.

E isso não é coragem. É irresponsabilidade institucional.

Também causa estranheza o nível do debate entre representantes eleitos pelo povo.

Quando faltam argumentos, aparecem os palavrões.

Quando faltam provas, aparecem acusações.

Quando faltam propostas, aparecem ataques pessoais.

E quando falta respeito pelas instituições, aparece o deboche.

É esse o Parlamento que queremos?

O brasileiro já está exausto da política transformada em guerra permanente de narrativas. De um lado, esquerda. Do outro, direita. De um lado, acusações. Do outro, contra-acusações.

E, no meio disso tudo, está o cidadão.

O cidadão que paga impostos.

O cidadão que enfrenta filas na saúde.

O cidadão que convive com insegurança.

O cidadão que trabalha cada vez mais para sobreviver.

Enquanto isso, alguns representantes parecem encontrar tempo de sobra para transformar as redes sociais em uma arena de insultos.

É preciso dizer com todas as letras:

mandato parlamentar não é licença para ofender.

Imunidade parlamentar não pode ser confundida com irresponsabilidade parlamentar.

Liberdade de expressão não significa que toda acusação pronunciada diante de uma câmera se transforme automaticamente em verdade.

Quem acusa deve apresentar provas.

Quem denuncia deve responder pelo que afirma.

E quem ocupa um cargo público deveria compreender que palavras também geram consequências.

André Janone tem todo o direito de fazer oposição, criticar Nícolas Ferreira e defender suas posições políticas.

Nícolas Ferreira também tem todo o direito de responder, se defender e recorrer às instituições.

Mas existe uma diferença fundamental entre combater politicamente um adversário e tentar destruí-lo pessoalmente.

A política brasileira precisa urgentemente reaprender essa diferença.

Porque, quando dois parlamentares transformam divergências em uma sucessão de ofensas, acusações e provocações, não há vencedor.

Há apenas desgaste da política e descrédito das instituições.

E talvez seja exatamente esse o maior perigo.

A população começa a olhar para o Parlamento e perguntar:

“É para isso que elegemos nossos representantes?”

A resposta deveria ser um sonoro não.

O Congresso Nacional deveria ser lugar de debate, fiscalização, legislação e defesa dos interesses da sociedade.

Não deveria se transformar em palco para uma competição de quem grita mais alto, ofende mais e consegue viralizar o vídeo mais agressivo.

A democracia brasileira já enfrenta desafios demais para ainda precisar conviver com o vale-tudo político.

Decisões judiciais devem ser cumpridas ou contestadas pelos caminhos legais.

Acusações devem ser acompanhadas de provas.

Críticas devem ser feitas com argumentos.

E adversários políticos devem ser tratados como adversários — não como inimigos que precisam ser destruídos a qualquer custo.

No episódio envolvendo Janone e Nícolas, quem deve julgar eventuais responsabilidades é a Justiça, com base nos fatos e nas provas.

Mas uma coisa cabe à sociedade julgar desde já:

o nível do debate político que estamos permitindo que nossos representantes estabeleçam como normal.

Porque se o deboche, o palavrão e a acusação sem comprovação forem aceitos como linguagem política cotidiana, amanhã ninguém deveria se surpreender quando o respeito pelas instituições simplesmente desaparecer.

E uma democracia sem respeito às suas próprias instituições não é uma democracia saudável.

É apenas um espetáculo.

E o cidadão brasileiro já está cansado de ser plateia.

(*) Redator- chefe do TMNews do Vale - Ponto de Vista — opinião, crítica e compromisso com o debate público, sem meias verdades

Não deixe de curtir nossa página www.profesortacianomedrado.com e no  Facebook e também Instagram para acompanhar  mais notícias do TMNews do Vale (Blog do professor TM)

Envie informações e sugestões para o TMNews do Vale  pelo   e-mail: tmnewsdovale@gmail.com


Faça um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem