A política brasileira parece cada vez mais mergulhada em uma lógica preocupante: em vez de explicar fatos, esclarecer denúncias ou enfrentar investigações com transparência, muitos líderes preferem recorrer ao velho roteiro da relativização moral. E foi exatamente isso que o senador Jaques Wagner (PT-BA) fez ao tentar justificar sua própria crise política evocando o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ao comentar o desgaste provocado pela operação da Polícia Federal que investiga supostas ligações com o Banco Master, Wagner escolheu um caminho revelador. Em entrevista à BandNews TV, o senador afirmou que “Lula também errou, foi preso e hoje é o presidente da República”. A frase, dita em tom de defesa pessoal, acabou expondo mais do que talvez o parlamentar pretendesse.
A declaração escancara um problema antigo da política nacional: a tentativa de transformar erros, suspeitas e investigações em algo banal, quase naturalizado dentro da vida pública. Em vez de reafirmar compromisso com ética, responsabilidade institucional e respeito às investigações, o senador optou por um argumento de conveniência política — como se o fato de alguém ter sobrevivido politicamente a escândalos servisse automaticamente como salvo-conduto para outros investigados.
Mais grave ainda foi arrastar Lula para o centro de sua crise particular. Dentro do próprio governo, a fala provocou desconforto. Afinal, Wagner acabou reacendendo debates que o Palácio do Planalto tenta evitar, justamente no momento em que o governo busca estabilidade política e reconstrução de imagem.
O episódio revela também a dificuldade de setores da classe política em compreender que cargos públicos não podem funcionar como escudos contra desgaste moral ou judicial. Quando líderes utilizam a narrativa de que “todos erram” para minimizar investigações, a mensagem transmitida à sociedade é devastadora: a de que a responsabilidade pública virou apenas um detalhe secundário no jogo do poder.
Posteriormente, em comum acordo com Lula, Jaques Wagner deixou a liderança do governo no Senado para concentrar-se em sua defesa. A saída, embora politicamente necessária, não apaga o estrago causado pela declaração.
No fim, o “consolo” encontrado pelo senador acabou sendo também uma confissão involuntária sobre o estado da política brasileira: um ambiente onde muitos ainda acreditam que sobreviver eleitoralmente importa mais do que preservar a credibilidade institucional.
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