REMINISCÊNCIA DA POLÍTICA BRASILEIRA

Nunca mais farei campanha para bandido', diz Ciro ao rejeitar apoio a Lula no 2º turno



Por Taciano Medrado

Caríssimo(a)s leitore(a)s,

A política brasileira tem memória curta, mas arquivos longos. E, vez ou outra, frases enterradas pelo calor do noticiário ressurgem como retratos incômodos de contradições mal resolvidas. É o caso da declaração de Ciro Gomes após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2022, quando, pressionado a declarar apoio a Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, foi categórico: “Nunca mais farei campanha para bandido.”

A frase não foi um deslize retórico. Foi uma escolha consciente, dura, carregada de ressentimento político e de uma ruptura que já vinha sendo construída há anos. À época, o então pré-candidato do PDT à Presidência descartou publicamente a possibilidade de apoiar o ex-presidente Lula em um eventual segundo turno contra Jair Bolsonaro. Em tom ainda mais enfático, cravou: “Nunca mais farei campanha para bandido nesse País, nem que o pau tore. Por isso eu tenho que estar no segundo turno”, disse o pedetista, sem citar diretamente Lula.

A declaração foi feita durante um painel no CEO Conference 2022, evento promovido pelo banco BTG Pactual, e ocorreu em resposta a uma pergunta provocativa sobre seu comportamento caso ficasse novamente fora do segundo turno — referência direta à sua ida a Paris em 2018, gesto que frustrou expectativas de apoio à candidatura de Fernando Haddad (PT). Na tentativa de se defender, Ciro argumentou: “Eu não fui para Paris para não votar. Eu voltei e votei no Haddad”, buscando afastar a imagem de omissão que o acompanha desde então.

Ainda assim, em 2022, Ciro decidiu cravar uma linha divisória, não apenas contra Bolsonaro, mas também contra Lula e o sistema político que, segundo ele, ambos representariam. Em meio a uma eleição marcada pela polarização extrema, qualquer posição fora do “nós contra eles” era tratada como traição. Mesmo assim, optou pelo isolamento político, recusando-se a subir no palanque lulista, gravar vídeos ou participar de atos no segundo turno.

Hoje, essa declaração ganha contornos de reminiscência histórica. Não apenas pelo peso das palavras, mas pelo contraste com a narrativa construída posteriormente por setores da esquerda, que tentaram suavizar ou reescrever o episódio como neutralidade estratégica. Não foi. Foi ruptura. Foi acusação direta. Foi um retrato cru das fraturas internas da política brasileira.

Ciro expôs algo que muitos dizem nos bastidores, mas poucos verbalizam em público: o esgotamento moral do discurso salvacionista, a tolerância seletiva com a corrupção e a transformação de lideranças políticas em mitos intocáveis. Ao usar o termo “bandido”, atacava não apenas uma figura política, mas um modelo de poder sustentado por alianças oportunistas, pragmatismo cínico e memória conveniente.

Passados os anos, a frase ecoa como um lembrete incômodo de que, no Brasil, a política não se move apenas por projetos, mas por ressentimentos, vaidades e sobrevivência. E, sobretudo, de que nada desaparece por completo no debate público.

Aqui, tudo volta, especialmente aquilo que alguém jurou nunca ter dito.

(*) Professor e analista político

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