Por: Valter Bernat*
Chocante, revoltante e inaceitável o que ocorreu com o pobre cão Orelha. Muitas manifestações têm ocorrido pelo país para exigir leis à altura de tais atos e punição severa aos autores. As pessoas de bem estão cansadas de tanta maldade e não podem aceitar tal covardia, independentemente de idade ou classe social de quem as cometeu. A impunidade faz isso. Já passou da hora de serem criadas leis mais severas para quem comete esse tipo de crueldade.
Frase clichê: o mundo hoje é uma aldeia. Nós nos sentimos todos um pouco pais, um pouco professores e um pouco inúteis. O que está sendo ensinado aos nossos jovens, dentro e fora de casa? Delegamos às telas eletrônicas a função de cuidar dessa juventude, mais abandonada que o cãozinho. Temos nos esquecido que os exemplos valem por mil lições. Tanto os bons quanto os maus.
O cãozinho Orelha não tinha sobrenome, não tinha tutor fixo, não tinha conta em rede social — até ter. Tinha apenas isso: duas orelhas caídas, um jeito manso de ocupar a calçada e a confiança ingênua de quem acredita que o mundo, apesar de tudo, ainda funciona.
Orelha era desses cães que aprendem cedo a geografia da bondade: a padaria onde sobra pão, a portaria que oferece água e o carinho rápido de quem passa atrasado, mas não endurecido. Um cão comunitário, dizem. Comunitário como uma praça, como um banco de jardim, como um silêncio que não incomoda.
Até que incomodou…
Porque há sempre alguém a quem a mansidão ofende. A quem a fragilidade parece provocação. A quem a existência tranquila de um ser indefeso soa como um desafio pessoal. E foi assim que Orelha deixou de ser paisagem e virou alvo.
Seu “assassinato” — palavra pesada, colocada entre aspas apenas por convenção jurídica, nunca por falta de sentido — não foi apenas o fim de um cachorro. Foi o retrato cru de um país onde a violência não precisa de motivo, só de oportunidade. Onde o fraco não é protegido. É testado até quebrar.
Orelha não reagiu, não mordeu e não atacou. Apenas confiou. E talvez esse tenha sido seu maior erro num tempo em que confiar virou imprudência.
Depois, vieram as notas de repúdio, os posts indignados, as velas e os protestos. Vieram os “não podemos normalizar”, os “isso diz muito sobre nós”, os “justiça por Orelha”. Vieram tarde, como quase sempre. Porque a comoção costuma chegar depois que o sangue já secou no chão.
Orelha virou símbolo. E todo símbolo carrega uma ironia cruel: só ganha nome depois de perder a vida. Enquanto vivo, era apenas mais um. Morto, virou espelho. E o que esse espelho mostrou não foi bonito.
Mostrou que a violência começa pequena, escolhendo quem não pode responder. Quem é capaz de matar um cachorro indefeso não tropeça por acaso na brutalidade — ele a cultiva. Mostra que a linha entre o “foi só um animal” e o “foi só mais um” é mais curta do que gostamos de admitir.
Orelha se foi, como se vão tantos outros sem crônica, sem manchete e sem hashtag. Mas deixou algo incômodo para trás: a pergunta que ninguém gosta de responder. Não sobre quem fez, mas sobre quem viu, quem ignorou e quem passou reto.
Porque no fim, talvez Orelha não tenha sido assassinado apenas por uma mão violenta, mas por um ambiente inteiro que já não estranha a crueldade. E isso, sim, deveria nos assustar.
A sociedade espera que a morte de Orelha não tenha sido em vão. Que se torne um divisor de águas nas ações que envolvem os crimes praticados contra animais, assim como foi com a Lei Maria da Penha.
Por que não uma “Lei Orelha”?
(*) Advogado, analista de TI e editor chefe do site O Boletim
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