Ao mestre com carinho, mas também com justiça

Em um concurso para professor, a prova de títulos não deveria anteceder a prova didática, quando esta se faz necessária?

Por: Taciano Medrado*

Olá, caríssimos,

Há muito tempo carrego uma inquietação que, confesso, nunca deixou de ecoar em minha consciência profissional: por que, em tantos concursos para professor, a prova didática vem antes da análise de títulos e do currículo do candidato? Se a experiência e a trajetória acadêmica são critérios objetivos e mensuráveis, não deveriam ser consideradas previamente, como etapa de triagem?

Levanto essa provocação porque, em diversas ocasiões, vi-me “obrigado”, por força de edital, a me submeter ao constrangimento de apresentar uma aula diante de uma banca examinadora composta por “professores doutores” cujas idades, muitas vezes, correspondiam à metade da minha.

Tenho 65 anos de idade. Destes, 35 foram dedicados à práxis pedagógica em sala de aula. Trinta e cinco anos de lousa, de diálogo, de desafios, de erros e acertos, de formação humana e intelectual de gerações. Quando me submeto a determinadas etapas de seleção, o sentimento que me invade é o de que essa trajetória é momentaneamente suspensa, como se meus anos de magistério fossem postos entre parênteses, e eu retornasse à condição de um “novato” tentando provar que sei ministrar uma aula ou que detenho notório saber sobre determinado tema.

Não se trata de soberba. Trata-se de reconhecimento institucional da experiência acumulada.

Recordo-me de um processo seletivo em que, ao entrar na sala de prova didática, deparei-me com um ex-aluno compondo a banca examinadora. A vida acadêmica tem dessas ironias belas e desafiadoras. Buscando manter a imparcialidade e evitar qualquer constrangimento, cumpri rigorosamente o rito do processo, abstendo-me de qualquer referência que pudesse expor nossa relação pretérita. Ele, com maturidade e inteligência, compreendeu minha postura. E é evidente que o fato de eu ter sido seu professor não deveria ,e creio que não interferiu, em sua avaliação.

Ainda assim, a situação é emblemática. O mestre torna-se avaliado pelo discípulo. O tempo gira, as posições se alternam, mas a experiência acumulada permanece.

É por isso que questiono: não seria mais razoável que a análise de currículos, títulos e experiências profissionais antecedesse a prova didática? Uma triagem criteriosa poderia selecionar aqueles candidatos cujo percurso acadêmico e profissional já demonstrasse densidade formativa e prática pedagógica consolidada. A etapa didática, então, cumpriria sua função de aferir método, comunicação e domínio de conteúdo, mas aplicada a um grupo previamente qualificado.

O modelo atual, em muitos casos, parece inverter prioridades. Avalia-se primeiro a performance pontual de uma aula de 30 ou 40 minutos, descontextualizada da história profissional do candidato, para depois se observar a robustez de sua trajetória. Ora, uma aula isolada não traduz décadas de dedicação ao ensino, tampouco sintetiza o impacto formativo produzido ao longo dos anos.

Defendo, portanto, não a supressão da prova didática, que é legítima e necessária,, mas a reorganização de sua ordem no processo seletivo. Respeitar o currículo é respeitar a história. Valorizar a experiência é valorizar o magistério como carreira e missão.

Ao mestre, com carinho, mas também com justiça.

(*) Professor e redator chefe do TMNews do Vale 




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