Há um erro estratégico recorrente, e quase infantil, que parte significativa da direita brasileira insiste em cometer a cada ciclo eleitoral: tratar eleições locais como se estivessem isoladas do contexto nacional. Enquanto isso, a esquerda faz exatamente o oposto. Nacionaliza o debate, conecta o voto municipal ou estadual ao projeto de poder em Brasília e transforma cada eleição em um plebiscito ideológico.
O resultado está aí, repetido como um roteiro já conhecido.
A esquerda entende algo básico: política é narrativa. Prefeitos, vereadores e governadores não são apenas gestores locais; são peças de um tabuleiro maior. Por isso, campanhas municipais da esquerda falam de “defesa da democracia”, “combate ao bolsonarismo”, “projeto nacional” e “resistência”. Mesmo quando o problema é um buraco na rua, o discurso remete a Brasília.
Nas eleições para prefeitos e vereadores de 2024, a militância lulopetista deixou isso ainda mais evidente ao concentrar suas estratégias na nacionalização do debate e na exploração sistemática da imagem de seu líder maior, Lula. Em Juazeiro, no norte da Bahia, a exemplo de tantas outras cidades do interior do estado, candidatos a prefeito e a vereador passaram a ostentar, com inteligência política, o famoso “L” de Lula em materiais de campanha, discursos e atos públicos, mesmo não se tratando de uma eleição presidencial.
A mensagem era clara: votar no candidato local significava, simbolicamente, votar em Lula e no projeto político que ele representa. A esquerda compreendeu que símbolos mobilizam, criam identidade e fortalecem vínculos emocionais com o eleitorado.
Já a direita, em boa parte dos casos, caiu novamente na armadilha da miopia política. Limitou-se a falar de problemas locais, evitou temas nacionais “para não polarizar”, fugiu do debate ideológico e, pior, em muitos municípios se aliou às mesmas estruturas que dão sustentação ao governo federal, em nome de uma suposta governabilidade regional.
É uma estratégia parva.
Ao regionalizar excessivamente o discurso, a direita entrega de bandeja à esquerda o monopólio da narrativa nacional. Abre mão de disputar valores, ideias e projetos de país. Age como se eleições fossem concursos administrativos, quando na verdade são disputas de poder, hegemonia e visão de mundo.
Não existe vácuo em política. Quando a direita se cala sobre temas nacionais, a esquerda ocupa o espaço, e ocupa com método. O eleitor é diariamente bombardeado por mensagens que associam qualquer candidato conservador a “ameaça”, “retrocesso” ou “extremismo”, enquanto muitos candidatos de direita tentam parecer neutros, técnicos e desideologizados.
O problema é que o eleitor não vota apenas em gestor; vota em identidade, pertencimento e posicionamento. A esquerda entendeu isso há décadas. A direita, em muitos rincões, ainda insiste em ignorar essa realidade.
Enquanto a esquerda usa eleições locais como trampolim para fortalecer seu projeto nacional de poder, a direita fragmenta suas forças, dilui seu discurso e enfraquece sua própria base. Depois, a surpresa é sempre a mesma: perde narrativa, perde espaço e perde eleições , inclusive onde o desgaste do governo federal é evidente.
Não se trata de negar a importância das pautas regionais, mas de compreender que elas não existem no vácuo. Município não é ilha. Estado não é mundo à parte. Quem insiste nessa ilusão estratégica continua jogando um jogo pequeno contra um adversário que pensa grande.
E, em política, quem pensa pequeno… perde.
(*) Professor e analista político
Não
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