O Brasil dos “profissionais”



(*) Percival Puggina

Quando Peter Kellemen lançou o livro “Brasil para Principiantes”, em 1959, ele vivia há seis anos em nosso país. JK presidia a república e a construção de Brasília ainda não havia iniciado. A obra do húngaro naturalizado brasileiro é uma análise bem-humorada sobre o modo como as coisas aqui funcionam ou não funcionam. Era uma época em que muitos europeus imigravam para o Brasil e se o livro, divertido e sincero, tivesse sido mais bem aproveitado, talvez o fluxo não se houvesse invertido com tão grande prejuízo nosso.

Hoje, o Brasil de onde os brasileiros querem ir embora é para “profissionais”. Quem não for, nem tente. Nem tente compreender o país porque eles não lhe darão a menor chance. Entender e explicar o Brasil requer acesso a jantares sigilosos, a eventos além-mar, a acordos entre “famiglie” que, em entrevero, operam pelos canais dos poderes de Estado e dos negócios.

Se você conclui, com razão, que isso nada tem a ver com democracia, então você está experimentando seus primeiros e inseguros passos no sentido da profissionalização. Há, de fato, algo de mafioso na realidade brasileira. A palavra máfia, por exemplo, provém do adjetivo siciliano mafiusu, significando arrogante ou audacioso. Já esse tipo de organização, também conhecido pela expressão Cosa nostra, sob autoridade pessoal de um Capo, surgiu com um sentido de soberania, inclusive territorial. Regia-se por leis próprias, como a “omertá” (lei do silêncio), que visavam ao interesse e à perpetuidade do poder como objetivos absolutos. Ou seja, um não soltava a mão do outro como se diz aqui em relação a certos casos bem sinistros.

Há coisa de uns quinze dias, na minha difícil condição de mero cidadão (vejam só que posto vulgar!), tentando entender o trabalho dos “profissionais”, me lembrei do bom e velho Dostoievski em “Os demônios”. Nesse livro, simplesmente precioso, há um personagem, encarnação da lucidez sem alma – o revolucionário Stavróguin – em torno do qual se forma uma célula de seguidores fanatizados e levados à destruição. As semelhanças com o noticiário brasileiro me desanimaram, então, sobre as possibilidades de que fosse rompido o círculo de ferro que submetia a nação.

Acontece que como foi dito no início deste pequeno texto, eu não sou profissional. Sou um velho principiante, aprendiz dedicado ao escrutínio das malas artes do poder nacional. Trump é pós-graduado, profissional como foram quantos deram aos Estados Unidos os meios de operacionalizar uma norma como a Lei Magnitsky. Profissionais, também, são jornalistas como Michael Schellenberg e Eli Vieira, que jogaram fora a tampa da Caixa de Pandora montada nas audiências de custódia dos presos do 8 de janeiro e – perdoem o já surrado trocadilho – magnificaram, com lente documental, irregularidades que chocaram a nação e o mundo.

Do nosso Estado democrático de direito, extinta a democracia e o direito, só restou para uso e abuso a força bruta do Estado. No entanto, a boa política também tem seus profissionais naquele punhado de bravos que se agregam hoje, enquanto escrevo, para restabelecer sobre escombros, a justiça, a liberdade, o direito e a democracia em nosso país. Num Congresso que manteve luzes apagadas, na escuridão destes tempos de vergonha nacional, quando os covardes se escondem, eles enfrentam adversários que parecem extraídos do livro de Dostoiévski que mencionei acima. Que o Senhor os proteja de todo mal.

(*) Arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras. Escreve, semanalmente, artigos para vários jornais do Rio Grande do Sul, entre eles Zero Hora, além de escrever o seu próprio blog e em outros websites de expressão nacional, a exemplo do Mídia Sem Máscara, Diário do Poder, Tribuna da Internet. Sua coluna é reproduzida por mais de uma centena de jornais.

Fonte: O Boletim

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