Enquanto os políticos esbanjam na abundancia, sem parcimônia, o povo sobrevive na resiliência na escassez

(*) Taciano Medrado

O Brasil é um país curioso: quando há abundância, a regra é torrar tudo sem pensar no amanhã; quando vem a escassez, sobra para o povo ser “resiliente”. Parece até que resiliência virou uma obrigação constitucional, mas só para a plebe.

Os políticos, por exemplo, são mestres da abundância sem parcimônia. Basta abrir os portais da transparência: prefeitos bancando shows milionários enquanto escolas municipais caem aos pedaços; governadores comprando jatinhos “oficiais” para voar sobre buracos nas estradas; ministros hospedados em hotéis cinco estrelas enquanto faltam seringas no SUS. E em Brasília, o circo é diário: deputados e senadores nadando em auxílios, mordomias, carros oficiais e cotas parlamentares, como se o dinheiro público fosse um pote sem fundo.

Já na escassez, o espetáculo é outro. O povo é chamado a “ter fé”, a “ser criativo”, a “apertar o cinto” — como se o cinto já não estivesse furado de tanto aperto. Dona Maria precisa inventar receita de arroz sem arroz; seu José faz milagre com o botijão parcelado em três vezes; e a juventude, que deveria sonhar com o futuro, se contenta em sobreviver ao presente. A resiliência é sempre exigida de quem menos pode.

Essa cultura da abundância irresponsável cria um círculo vicioso. Quando a maré da economia baixa, sobra para o povo viver a escassez na carne. Famílias cortam carne do prato, trabalhadores parcelam gás de cozinha e a classe média, sufocada de impostos, financia um Estado que parece existir apenas para servir a si mesmo. A palavra resiliência vira obrigação para quem já nasceu em desvantagem, enquanto políticos, gestores e empresários amigos do poder continuam blindados em suas bolhas de privilégios.

O caso mais recente é emblemático: o governo federal gastando milhões em viagens e mordomias, enquanto repete o discurso de “ajuste fiscal” para justificar corte em áreas essenciais. Ou ainda prefeituras comprando carros de luxo e distribuindo cargos comissionados, enquanto a população enfrenta filas intermináveis em hospitais sucateados. É a velha regra da política brasileira: quando sobra, se esbanja; quando falta, empurra-se o sofrimento para os de sempre.

Enquanto isso, a elite política e econômica continua blindada. Não falta gasolina para carros oficiais, nem vinho caro em banquetes palacianos. E ainda têm a audácia de dizer que “o Brasil precisa cortar gastos”. Claro, cortar sempre no lombo do povo — porque cortar mordomia de gabinete é “inviável”.

É por isso que a máxima deveria ser estampada na porta do Congresso, nas prefeituras e nos palácios de governo: na abundância, parcimônia; na escassez, resiliência. Mas aqui o jogo é invertido: na abundância, desperdício; na escassez, covardia.

Mas, enquanto a abundância continuar a ser festa para poucos e a escassez, castigo para muitos, estaremos condenados ao eterno pêndulo da desigualdade.

No fim, sobra a pergunta incômoda: até quando o brasileiro vai ser resiliente? Porque paciência demais, como todo recurso, também se esgota.

(*) Professor e analista político

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