Imagem criada para o TMNews do Vale, com auxílio da I.A
No Brasil, certos termos mereciam ser tombados pelo IPHAN como relíquias em risco de extinção. Caráter, honestidade, ética e moral são quatro palavras que resistem bravamente entre as páginas dos dicionários, mas que, na vida real, sumiram feito verba pública em licitação.
Aqui, falar em honestidade é quase uma afronta. O sujeito honesto é visto com desconfiança, como quem tem algo a esconder — afinal, quem em sã consciência não aproveita uma boquinha, um atalho, um desviozinho básico? O honesto é o “trouxa” da vez, enquanto o esperto vira ministro, consultor, empresário premiado… ou presidente da comissão que investiga a própria corrupção.
Caráter? Só se for de novela. Na vida real, o que vale mesmo é saber mentir com convicção e posar de indignado nas redes sociais. Moral? Depende: é a dos outros ou a de quem tem foro privilegiado?
A ética virou item decorativo em discursos de posse. Quem não se lembra do Mensalão, aquele desfile de malas e cuecas recheadas com dinheiro do povo, tudo em nome da “governabilidade”? Ou do Petrolão, onde a maior estatal do país virou uma espécie de caixa eletrônico a serviço de partidos, empreiteiras e delatores premiados?
Mas calma, não acabou. A criatividade do brasileiro não tem limites. Chegamos agora à farra do INSS, o novo parque de diversões da malandragem nacional: aposentadorias concedidas a mortos, benefícios milionários a fantasmas e uma fila de gente viva esperando enquanto os defuntos seguem recebendo em dia e o mais recente escândalo dos descontos indevidos nos contracheques dos aposentados e pensionistas. A morte, no Brasil, não impede mais ninguém de mamar nas tetas do Estado — pelo contrário, parece até garantir mais eficiência no pagamento.
Enquanto isso, o dicionário permanece firme, coitado, como último refúgio dessas palavras esquecidas. Nele, ética ainda significa “conjunto de valores que regem o comportamento humano”. Aqui fora, no entanto, virou sinônimo de “quem pode mais, chora menos”.
E se você acha isso revoltante, parabéns: ainda existe esperança. Mas prepare-se, porque neste país, quem carrega princípios costuma carregar também frustrações. Porque no Brasil, caráter, honestidade, ética e moral não são virtudes — são obstáculos no caminho de quem quer “vencer na vida”.


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