A
Ordem dos Advogados de Portugal quer restringir o acordo que garante
reciprocidade para o exercício profissional com o Brasil. Em março, a
presidente da entidade teve uma reunião com o líder da OAB (Ordem dos Advogados
do Brasil) para começar os trâmites de revisão do entendimento.
Conforme
revelado pela Folha de S.Paulo, 9,4% dos advogados com registro ativo no país
europeu em 2022 eram brasileiros. Dos cerca de 34 mil inscritos na instituição,
3.173 eram oriundos do Brasil. O número significa uma alta de quase 482% em
relação aos 536 brasileiros listados na entidade portuguesa em 2017.
Não
foram apresentadas oficialmente justificativas para o endurecimento das regras
de reciprocidade, mas a presença maior de profissionais estrangeiros no já
concorrido mercado de direito português é frequentemente assunto entre
advogados lusos.
Dados
do Conselho da Europa indicam que, em 2020, Portugal registrava 2,5 vezes a
média europeia de advogados. Eram 321,63 profissionais por 100 mil habitantes,
enquanto a média do continente era 134,51.
A
Ordem dos Advogados de Portugal reconheceu, por meio de sua assessoria, que
está em processo de mudanças no acerto de reciprocidade com o Brasil. A
entidade informou, no entanto, que só irá se manifestar quando houver
alterações concretas.
No
site da instituição existe um comunicado sobre o assunto. "De momento
encontra-se em discussão entre as ordens uma proposta de alteração do regime de
reciprocidade que, por um lado, garanta os direitos, liberdades e garantias da sociedade
portuguesa e brasileira, e, por outro, responda às necessidades apontadas pelos
próprios profissionais que aqui se encontram inscritos ao abrigo do regime de
reciprocidade", diz o texto.
"A
advocacia é uma profissão de excelência, com custódia constitucional, cabendo
às ordens de cada país garantir a qualidade e elevada capacidade técnica dos
profissionais que a exercem, pelo que devem ambas as instituições encontrar a
melhor solução para que se cumpra esse desiderato", completa.
Procurada,
a Ordem dos Advogados do Brasil confirmou a revisão dos procedimentos e afirmou
querer chegar a um resultado que preserve o direito dos profissionais
brasileiros.
"A
OAB tem dialogado com a Ordem dos Advogados de Portugal para chegar a um
entendimento que contemple a todos e preserve os direitos dos profissionais
brasileiros de atuarem nos países de língua portuguesa. Isso inclui a
elaboração de novos protocolos para inscrição de brasileiros em adequação à
legislação portuguesa. O Conselho Federal da OAB respeita a autonomia da Ordem
de Portugal e busca a manutenção e o incremento à bilateralidade instituída
entre a advocacia luso-brasileira."
Nenhuma
das partes quis adiantar as medidas em análise, mas profissionais envolvidos
nas negociações afirmam que um dos pontos em discussão é a necessidade de
formações complementares em direito português e exigência prévia de visto ou
autorização de residência no país.
Em
resposta à Folha de S.Paulo em dezembro de 2022, o antigo presidente da ordem
portuguesa, Luís Menezes Leitão, afirmou que o acordo era benéfico para os dois
países, "tendo surgido apenas algumas dificuldades devido à falta de
formação dos profissionais sobre as regras específicas de cada um dos
ordenamentos".
Apesar
das semelhanças no direito português e brasileiros, há extensas diferenças
legais em cada lado do Atlântico. Sabendo das possíveis dificuldades para os
profissionais recém-chegados, a própria ordem portuguesa passou a oferecer
cursos gratuitos para complementar a formação.
Pelo
princípio de reciprocidade atualmente em vigor, presente nos estatutos da
entidade lusa desde dezembro de 2015, os advogados brasileiros não precisam
revalidar seus diplomas nem fazer provas adicionais para atuar no país, sendo
suficiente a inscrição válida e em atividade na OAB.
Os
profissionais do Brasil também não precisam fazer estágios profissionais,
embora exista uma longa lista de documentos apresentar. A conclusão do processo
de inscrição pode levar alguns meses.
Aproveitando
o boom da imigração brasileira para Portugal, muitos advogados abraçaram o
direito migratório de nacionalidade. Também há forte atuação de profissionais
em segmentos como direito empresarial e imobiliário, inclusive com escritórios
e sociedades inteiramente formados por brasileiros.
Com informações da folha de São Paulo
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