CRÔNICA: prefixo ZYH 459


Dezenas de milhares de vezes o prefixo ZYH 459 da Rádio Juazeiro foi colocado no ar. Qual a importância dessa citação , tantas e tantas vezes num dia ? Era obrigatório por lei que a cada 20 minutos assim ocorresse, devido ser fundamental na navegação aérea em tempos idos.

Há quase 20 anos o sistema de posicionamento global – GPS – faz parte da rotina de todos e se baseia num processo de referenciamento conhecido pelos povos antigos, com citações anteriores de cerca de 2.000 anos A.C: três pontos distintos formam um triângulo e o ponto de encontros de suas medianas é o baricentro ou ponto G. Em qualquer ponto da terra algo ou alguém sempre estará entre três satélites do sistema de posicionamento global; logo será facilmente detectada sua localização por será o ponto G do sistema.

Antes da existência do GPS a navegação aérea não era simples assim; além da bússola e da orientação por meio dos objetos celestes o avião necessitava está entre três antenas que emitiam sinais de radiofrequência para o piloto saber que transitava corretamente na via aérea que constava na carta de navegação. E onde entra o prefixo da rádio ? Um exemplo: o piloto devia conduzir seu avião entre Recife e São Paulo, ele possuía todas os prefixos da rádios do percurso e em que caso de pane nas antenas de rádio frequência, o que não era raro de acontecer, ele sintonizava o rádio do avião e escutando o prefixo sabia se estava ou na rota certa. Primitivo, mas muito engenhoso . O prefixo ZYH 459 deve ter colocado nas rotas certas muito aviões, tenho certeza. E por que a Rádio Juazeiro era a escolhida pela Aeronáutica ? Pela potência dos seus transmissores, embora outras rádios ajudassem também caso a mesma saísse do ar por algum motivo. Era uma questão de redundância outras rádios citarem seus prefixos.

A antiga VARIG, por meio da Nordeste linhas aéreas, fazia a rota Recife – Petrolina – Salvador já nos anos da década de 1970 e colocou três antenas de radiofrequência em Petrolina: uma onde é o SESC – Petrolina, outra colada na Escola Professora Adelina Almeida, e uma terceira por trás do antigo Posto Espacial. Por questão de segurança as antenas ficavam em terrenos enormes e cercadas e em pelo menos duas delas existiam moradores nos locais. Com a construção do novo aeroporto de Petrolina , o antigo ficava onde hoje é a UNIVASF e o Parque Josepha Coelho, e a instalação do radar no mesmo a estruturas das antenas foram desmontadas e os terrenos vendidos pela VARIG.

Quando criança eu morava na Areia Branca, muito perto de uma das antenas, e aquela caveira, fixada no portão do terreno da mesma, metia medo. Período natalino não fazia nenhuma diferença para a população pobre daquele bairro e a chegada de um circo fez toda a diferença naqueles dias.

Donos de circos, por definição e com exceção das megas estruturas circenses, são sonhadores obstinados, e o donos de circos mambembes, mais ainda. Um único caminhão descarregou toda a estrutura e parafernália concernentes à atividade. Era quase um micro circo, talvez uma “empanada de esquete” como eram conhecidos os locais cobertos por lonas, mas que não eram circos, e sim um teatro simples onde eram apresentadas os chamados “esquetes” (textos simples, melodramas, historietas de domínio público…) ou/e peças populares de muito apelo emocional. No outro dia com a montagem tivemos a certeza que era uma “empanada” : um circo na Areia Branca era pedir demais !

A “empanada” foi montada num terreno baldio e na sexta-feira seria o primeiro espetáculo. Um abismo sempre chama outro abismo e o dono da “empanada” foi comunicado que precisaria retirar sua estrutura devido a cerimônia de lançamento da pedra fundamental da igreja que seria construída naquele local. Para onde ir ? O dono da “empanada” não pensou duas vezes ( e talvez pela falta de recursos) e levou a estrutura para o terreno da VARIG – aquele da antena , cercado e com o desenho hiper realista da caveira no portão – que ficava pertinho.

Com a promessa de entradas gratuitas não ficou um único menino que não ajudasse no transporte das tramoias e coisas afins.

Primeiro dia de espetáculo caiu na véspera de Natal e a meninada toda fazendo fila para entrar gratuitamente em função do trabalho feito. Um anão era uma espécie da fiscal e separava quem trabalhou de quem queria levar vantagens. Separação feita, entro e lá estou eu sentado no “poleiro” que rangia prenunciando um futuro desabamento. Entra o dono do circo e não precisava ser nenhum especialista em linguagem corporal para perceber o desânimo estampado no seu rosto: metade da plateia eram de meninos-ajudantes-improvisados ! Ofereceu ao seu distinto público a emocionante peça “Coração de Luto” , que já havia sido musicada e filmada por um cantor famoso, à época, por nome Teixeirinha .

Dia de Natal amanheci na porta da “empanada” perguntando se havia algo para fazer em troca de uma entrada para o espetáculo de logo mais ? –

- Tem não, menino! Mas troco entrada por alguma comida … 

Fui ao centro da cidade pagar uma conta e ia passando em frente ao prédio da Emissora Rural quando vi Stella Rios: a melhor e mais culta locutora que já apareceu pelo Vale do São Francisco e de um coração enorme. Por impulso fui em direção à ela e contei que o pessoal da “empanada” estava passando fome e tal … Ela levou-me até os estúdios da rádio e perguntou se eu contaria a história no ar? Falei que não tinha coragem! Ela me colocou no carro da Emissora e junto com o técnico foi até o local e de lá fez uma chamada pedindo doações para o pessoal e que deixassem na porta da Emissora… E foi assim que naquela noite de Natal não faltou comida para todos da “empanada” !

Na manhã seguinte o prefixo ZYI 780 Emissora Rural, a Voz do São Francisco noticiou que vândalos haviam invadido o terreno da VARIG e para evitarem à volta ao local dos “invasores comunistas” tiveram toda a estrutura queimada.

Anos depois tive o prazer de trabalhar com Stella Rios no antigo Colégio Motiva e quando contei a ela que eu era o menino da história da “empanada” que os militares destruíram, ela chorou como um bezerro desmamado… Como eu também choro, nesse instante que escrevo, ao lembrar que ideologias tolas e sem nexo confundem tudo e destroem vidas e sonhos.

 

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