ELEIÇÕES NA FRANÇA: Como candidata de direita radical está corroendo favoritismo de Macron para a presidência da França

© AFP Marine Le Pen moderou seu discurso e mudou seu programa para atrair eleitores

Na reta final da campanha das eleições presidenciais na França em abril, com o primeiro turno neste domingo, o presidente Emmanuel Macron, apontado como favorito há vários meses, vem sofrendo uma erosão progressiva nas pesquisas, enquanto a candidata da direita radical Marine Le Pen registra progressão constante.

A diferença entre os dois nas intenções de voto no segundo turno, dia 24 de abril, que era de 16 a 22 pontos percentuais em meados de março, caiu drasticamente agora para quatro a seis pontos, de acordo com alguns institutos de pesquisa opinião, algo jamais visto em relação a um partido da direita radical numa votação presidencial.

Até recentemente, estas eleições francesas pareciam não ter suspense em relação à provável vitória de Macron, que vem liderando as pesquisas há vários meses. Elas indicam que o segundo turno deverá ser novamente disputado, como em 2017, entre Macron e Le Pen, do Rassemblement National (Agrupamento Nacional, antiga Frente Nacional). Mas agora, com a redução considerável da diferença entre os dois, dentro da margem de erro das intenções de votos, o cenário político mudou, reforçando a ideia de que o resultado final pode não ser o previsto.

Le Pen chegou a ficar fortemente enfraquecida no final do ano passado com o surgimento da candidatura de Éric Zemmour, polêmico jornalista de discurso extremista que acumula na Justiça processos por incitação ao ódio racial e religioso e que atraiu parte do eleitorado de Le Pen.

A candidata do Rassemblement National mudou então o foco de sua campanha, deixando em segundo plano temáticas fortes do partido, como imigração, islã e segurança, que se mantêm radicais, para concentrar seus discursos e projetos em questões econômicas de interesse dos franceses em geral, principalmente ligadas ao poder de compra, a maior preocupação do eleitorado nesta campanha, sobretudo em razão da alta da inflação.

Uma das medidas de seu programa com forte apelo para a população na conjuntura atual é a redução do tributo equivale ao ICMS de 20% para 5,5% sobre a energia (combustíveis, eletricidade e gás), que ela considera como "produtos de primeira necessidade". Le Pen também prevê indexar as aposentadorias à inflação, aumentar os salários dos professores, profissionais de saúde e dos trabalhadores que ganham até três mínimos, nesse caso com a exoneração dos encargos sociais, além da isenção de impostos para jovens com até 30 anos.

Embora o partido, fundado por seu pai, Jean-Marie Le Pen, seja há décadas considerado uma sigla de direita radical na França, Marine Le Pen moderou seu discurso e mudou seu programa para atrair eleitores que tradicionalmente votam em partidos de esquerda. Em 2017, ela já havia conquistado 39% do voto operário na França. Nesta eleição, incluiu em seu programa medidas sociais, a melhoria dos serviços públicos e a defesa de um Estado protetor, que são marcos fortes da esquerda.

Já o presidente Macron - que declarou oficialmente sua candidatura apenas no início de março, na véspera da expiração do prazo final, e se recusou a participar de debates com os rivais antes do primeiro turno, que não ocorreram - anunciou alguns projetos considerados bem impopulares. Um deles é o aumento da idade mínima para aposentadoria dos atuais 62 para 65 anos. Outra medida bastante criticada é a exigência para quem recebe o benefício de uma renda mínima (concedido a dois milhões de pessoas) de trabalhar 15 a 20 horas por mês. Essa ajuda é concedida a pessoas que não têm mais direito de receber o seguro-desemprego.

A forma como a campanha vem sendo realizada também é totalmente diferente entre os dois candidatos. "Le Pen tem feito uma campanha ativa e de proximidade com os eleitores em áreas rurais e nas periferias dos grandes centros urbanos, em vez de grandes comícios com partidários", afirma Mathieu Gallard, diretor de pesquisas do instituto Ipsos.

Macron, até então confortável na posição de grande favorito, optou sobretudo por conversas com leitores de jornais ou eleitores convidados por políticos próximos ao presidente, além de vídeos em comícios de seu partido e nas redes sociais. Para alguns, ele preferiu não assumir o risco de fazer campanha. Recusou inclusive o convite para participar do programa Elysée 2022 do canal France 2 na semana passada, no qual seria entrevistado. Foi o único entre os 12 candidatos (divididos em dois programas) que não participou.

No início da guerra na Ucrânia, Macron ganhou vários pontos nas pesquisas. O presidente francês já teve inúmeros contatos telefônicos com o líder russo, Vladmir Putin, desde a invasão da Ucrânia. Mas esse efeito inicial sobre as intenções de voto a favor de Macron perdeu força. Os franceses estão aparentemente mais preocupados com as consequências econômicas do conflito.

Mesmo se os vários compromissos internacionais ligados à Ucrânia deram visibilidade ao presidente nas últimas semanas, isso também impediu que ele fizesse campanha e contribuiu para que parecesse distante dos franceses, apesar do seu slogan "Macron com você".

O presidente tentou corrigir isso na reta final da campanha ao fazer aparições em algumas localidades. "Ao mesmo tempo que a gestão da guerra beneficiou Macron, isso deixou de ser uma força para ele porque, enquanto seus adversários iam ao contato do público e debatiam, ele estava fora disso", diz Brice Teinturier, diretor-geral do instituto Ipsos.

Incógnitas

Às vésperas do primeiro turno, quase um terço dos eleitores franceses ainda continua indeciso. Uma outra incógnita que pode alterar o resultado da votação é a taxa de abstenção, estimada em cerca de 20%, segundo pesquisas. Alguns especialistas prevêem que ela poderá bater o recorde de 2002 (28,4%), quando o pai de Marine Le Pen chegou ao segundo turno surpreendendo as expectativas.

Operários, agricultores e trabalhadores em geral menos qualificados são os que mais devem se abster de votar, de acordo com pesquisas. É um eleitorado que tende a votar mais em Marine Le Pen.

Segundo as últimas pesquisas, Macron lidera o primeiro turno com 26% a 27% na maioria delas. Le Pen se situa entre 22% e 24%. Em meados de março, a candidata do Rassemblement National tinha entre 17% e 18%.

O terceiro colocado, que como Le Pen vem crescendo progressivamente, é o candidato da França Insubmissa, da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, com cerca de 17%.

Mélenchon vem se beneficiando da transferência de votos de eleitores de outros partidos da esquerda, reforçando a dinâmica de voto útil que ele mesmo destaca em seus discursos, chamando de "voto eficaz".

Os dois partidos tradicionais, que governaram a França nas últimas décadas, Os Republicanos, da direita, e o partido socialista, de esquerda, correm o risco de implodir nessa eleição. Valérie Pecresse, de Os Republicanos, registra cerca de 9% nas pesquisas e a socialista Anne Hidalgo, prefeita de Paris, apenas 2%.

Mélenchon não é o único que pode se beneficiar da dinâmica de "voto útil". Le Pen também espera atrair eleitores de Zemmour, além de passar a mensagem de que ela é a única com condições de vencer Macron, o que pode influenciar os opositores mais ferrenhos do presidente. O líder francês também espera tirar proveito do "voto útil" ao representar a estabilidade em um período de crise sanitária e internacional por conta da guerra na Ucrânia e, ao mesmo tempo, a moderação capaz de barrar a direita radical de Le Pen.

Com informações da BBC News

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