Em
1991, o ativista norte-americano Orville Schell desembarcou em Beijing sob o
disfarce de um executivo interessado em comprar produtos para exportação.
Entretanto, o verdadeiro objetivo era secretamente registrar imagens de
trabalho forçado no país asiático, mais tarde exibidas no programa 60 Minutos,
da rede CBS. Hoje, 30 anos depois, ele diz que a China experimenta uma perigosa
volta ao passado, capitaneada pelo “inseguro” presidente Xi Jinping. “Essa é
uma das grandes tragédias de qualquer país no século passado”, disse Schell,
que atualmente comanda o Centro de Relações EUA-China da Asia Society, em
Nova York, e concedeu entrevista à rede Voice of America (VOA).
A
experiência de Schell há mais de 30 anos parece bastante atual, com as
denúncias de que Beijing impõe trabalho forçado à minoria étnica dos uigures na região autônoma
de Xinjiang. Hoje,
porém, fazer registros semelhantes aos de 1991 seria impensável, de acordo com
o ativista. Naquela ocasião, ele chegou ao país acompanhado do dissidente Harry
Wu e de repórteres da CBS. Eles usaram câmeras escondidas para fazer as imagens
dos trabalhadores, enquanto fingiam negociar a compra dos produtos.
“Você
não poderia fazer isso hoje. Você nem sairia do avião. É impensável”, diz ele,
destacando a crescente repressão chinesa sob o governo Xi, que atinge não
apenas os cidadãos chineses, mas também os estrangeiros, dentro
ou fora da China.
É
justamente a repressão do governo que, na visão de Schell, não permite
classificar como “genocídio”
o tratamento dispensado por Beijing aos uigures, definição usada por nações
como EUA, Reino Unido, Lituânia e Canadá. “O que está acontecendo em Xinjiang é
bem diferente, não menos pernicioso, de certa forma”, afirma Schell. “Tem menos
a ver com de fato matar pessoas, como os alemães fizeram nos campos de
concentração, e mais a ver com algo que é exclusivamente comunista chinês, ou
seja, tentar mudar o pensamento, a religião, os hábitos culturais dos uigures”.
O
ativista, porém, deixa claro que isso não reduz o impacto do que vem sendo
feito. É apenas uma questão de nomenclatura. “Precisa de um novo nome”, diz
ele.
Nomenclatura
à parte, as acusações de abusos
em Xinjiang, na opinião de Schell, surtem efeito. “Acho que alguns campos
estão fechando, acho que tem gente que foi solta no ano passado”, diz ele.
“Acho que o Partido
Comunista Chinês (PCC) ouve o que os estrangeiros dizem, o que a mídia
estrangeira diz, os governos estrangeiros dizem. Mas, por outro lado, acho que
eles estão muito relutantes em abrir mão dessas ferramentas de controle”.
Na
visão de Schell, esse controle e
o pavor que Beijing parece ter da influência
estrangeira remetem ao histórico de vida de seu líder. “Tem muito a
ver com o caráter e
a natureza lógica de Xi Jinping”, afirma. “Ele nunca foi para o exterior, não
fala uma língua estrangeira, não se sente à vontade com empresas estrangeiras.
Não é uma pessoa cosmopolita. É muito inseguro,
muito insular, muito ‘tu’ (não sofisticado, em chinês mandarim)”.
Já
o cenário de marginalização gradual da China, para Schell, é de se lamentar, em
meio ao crescimento econômico e ao aumento da influência global do país. “Em
vez de se juntar à ordem mundial e desfrutar desse imenso sucesso que o povo
chinês alcançou, está fazendo com que todos se sintam desconfortáveis. Está
antagonizando um país após o outro, reunindo todos os Estados da Ásia em uma
tensão muito séria”, diz ele. “Essa é uma das grandes tragédias de qualquer
país no século passado”.
Por
que isso importa?
A
comunidade uigur habita a região autônoma de Xinjiang, no noroeste da China. A
província faz fronteira com países da Ásia Central, com quem divide raízes
étnicas e linguísticas.
Denúncias dão
conta de que Beijing usa de tortura, esterilização
forçada, trabalho obrigatório e maus tratos para realizar uma limpeza
étnica e religiosa em Xinjiang.
Estimativas
apontam que um em cada 20 uigures ou cidadãos de minoria étnica já
passou por campos de detenção de forma arbitrária desde 2014. O
governo chinês admite a existência de tais campos, que abrigam mais de um
milhão de pessoas, mas alega que eles servem para educação
contraterrorismo.
O
governo de Joe Biden,
nos EUA, foi o primeiro a usar o termo “genocídio” para
descrever as ações da China em relação aos uigures. Em seguida, Reino Unido e
Canadá também passaram a usar a designação, e mais recentemente a Lituânia se
juntou ao grupo.
Para ler mais acesse, www: professortacianomedrado.com
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