Da Redação
Dos
países da Ásia Central, o Afeganistão é
um dos que mais retratam as características tribais de uma região que, há
milênios, é palco da luta de povos nativos pelo controle local. O sufixo Istão,
inclusive, proveniente do iraniano "stan", significa terra, local,
remetendo cada uma dessas denominações, à relação de algum povo com sua região
de origem: Afeganistão, Tadjiquistão, Quirguistão, entre outros.
Neste
sentido, os conceitos tribais, de uma época, anterior aos anos 2 mil a.c,
prevalecem sobre os que se desenvolveram para formar as chamadas democracias
ocidentais, a partir principalmente da Revolução Industrial (a partir de 1760),
conforme afirma o professor Danilo Porfírio de Castro Vieira, professor de
Relações Internacionais e Direito no Uniceub (Centro Universitário de
Brasília).
"O
Afeganistão, enquanto país, tendo como marco o ano de 1919 com a saída dos
britânicos, nunca esteve dentro da lógica de estado nacional de tradição
europeia, com um povo, uma nação, um território, soberania. Na verdade a gente
vê uma confederação de etnias, de grupos, como pashtuns, tadjiques, quirguizes,
turcomenos, com etnia, cultura, tradição e visão religiosa próprias. O que une
aquela região é o islã, mas dentro de diversas interpretações, há islã sunita,
xiita e por aí adiante", observa.
Povoada
há mais de 2,5 mil anos, a região do Afeganistão já integrou o Império Persa
(cerca de 500 a.c), esteve sob o domínio de Alexandre da Macedônia (356.a.c a
323.a.c), foi palco do budismo por meio do Império Kushana, antes de voltar ao
controle persa para, então, já com o islamismo difundido na região, passar para
o domínio mongol (do século 3 d.c ao 7 d.c).
Em
1747, Ahmad Shah Durrani, originário dos antecessores dos pashtuns, unifica o
país e se torna rei do Afeganistão, até a chegada dos ingleses. As várias
etnias, no entanto, sempre foram a marca daquela região. E o islamismo se
enraizou na maioria delas, tornando a religião um importante instrumento de
identidade local.
Tal
característica só facilitou a tomada de poder do Talibã, que chegou em 1995 e
foi tirado em 2001, após os atentados de 11 de setembro, com os bombardeios
comandados pelos Estados Unidos, após o regime abrigar células da Al-Qaeda que
organizaram os ataques em território americano naquele ano.
"O
Talibã é um movimento que se desenvolve em um grupo étnico relativamente
majoritário em termos de controle territorial, os pashtuns. Eles se mantiveram
sempre presentes em uma guerra civil que nunca terminou, desde 2001. A presença
americana e da Otan na região foi entendida como uma guerra santa, uma ação a
ser respondida como Jihad ao invasor. Os talibãs nunca foram efetivamente
derrotados e o que os ajuda também é a geografia complicada da região, que é
início da cordilheira do Himalaia, extremamente acidentada, ora desértica, ora
fria, complicada de ir e vir em termos de contingente militar", observa
Castro Vieira.
Enquanto
o país carrega características milenares, similares à época das primeiras
formações urbanas, o Talibã se liga à modernidade quando o assunto são
armamentos. Há fortes suspeitas de que o grupo mantenha inclusive armas
fabricadas nos Estados Unidos, como carabinas M4 e rifles M16, aviões de ataque
A-29 Tucano, helicópteros Black Hawk e veículos utilitários militares Humvee.
Com
tal arsenal, aliado aos preceitos radicais interpretados na lei islâmica, a
expectativa é a de que o grupo volte a financiar atentados terroristas pelo
mundo. O discurso mais moderado não disfarça a essência extremista do grupo,
segundo Castro Vieira.
"O
Talibã já esteve no poder década de 90 e estabeleceu um regime duro, de
supressão das liberdades das mulheres e opressão contra qualquer forma de
divergência seja ela política ou religiosa. Acolheu células terroristas jihadistas,
a Al-Qaeda a Jihad Islâmica e, após o 11 de setembro, não quis entregar as
lideranças responsáveis que estavam no Afeganistão, essa foi a causa da guerra
ao terror" diz.
Após
a retomada do poder, líderes do Talibã foram vistos na capital Cabul, para
organizarem o novo governo. Entre os presentes nas conversas estavam Khalil
Haqqani - um dos terroristas mais procurados pelos Estados Unidos, com uma
recompensa de 5 milhões de dólares por sua captura, em função de suas ligações
com a Al-Qaeda.
A
declaração de funcionário da inteligência britânica, ao Voice of America, a
respeito da presença de Haqqani no Afeganistão se encaixa à afirmação de Castro
Vieira sobre a ameaça terrorista crescente com a retomada de poder pelo Talibã.
"O
fato de termos Khalil Haqqani encarregado da segurança de Cabul é desanimador.
Haqqani e a Al-Qaeda têm uma longa história juntos, você pode argumentar que
eles estão interligados e é altamente improvável que eles cortem os
laços", disse o funcionário.
Sobre
isso, Castro Vieira completa, analisando a aceitação de China e Rússia do novo
governo. Sobre a Rússia, a questão tem relação com as aspirações separatistas
da Chechênia.
"É
uma questão de segurança regional. Não é à toa que a China e a Rússia se
mostram muito prudentes e até resilientes com status do Talibã, qualquer
hostilização naquela região é um problema. O Afeganistão, do Talibã, foi um
espaço que incitou guerras civis no Cáucaso, diga-se a Chechênia. Putin não
quer encrenca e dor de cabeça com o Talibã, já disse que há territórios russos
em que não se exige visto. Grande parte da Ásia Central tem maioria islâmica,
para potências como a Rússia, é melhor aceitar e ficar vigilante", diz.
Em
relação à China, a questão diz respeito, entre outras, às manifestações dos
uigures em prol da liberdade. Os uigures são muçulmanos de origem turcomena que
habitam a província chinesa de Xinjiang.
"A
China tem fronteira com o Paquistão, uma potência nuclear que tem relação muito
forte com o Talibã, já que parte do exército paquistanês e parte dos
paquistaneses são pashtuns (muitos deles adeptos do Talibã). Isso é preocupante
para o governo chinês, que disputa espaço na Caxemira e combate na província de
Xinjiang, onde a China luta para controlar a comunidade islâmica local, com
perseguições inclusive. A questão para a China é agora ter de tratar com uma
ordem política estatal jihadista próxima de sua fronteira", ressalta.
A
postura da China e da Rússia, neste sentido, são mostras claras do temor que
ronda o mundo, apesar das declarações menos ameaçadoras do atual regime do
Talibã.
"É
importante lembrar que, quando os talibãs tomaram o poder na década de 90,
falaram a mesma ladainha de agora, que eles não são ameaça para ninguém, que é
uma questão interna, que as mulheres serão resepeitadas dentro da sharia...
Basta olhar as reportagens de então. Seguindo John Adams (segundo presidente
americano, de 1797 a 1801), fatos são coisas teimosas, não mudam. Isso vale
para o Talibã. Analiso o grupo pelas obras deixadas, não há como relativizar. O
temor é esse, de ações terroristas, de incitação de insurgentes, aí não há
outra forma, teremos de pagar para ver", completou Castro Vieira.
Com informações de Eugenio Goussinsky, do R7
Para ler mais acesse, www: professortacianomedrado.com
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