ARTIGO: : PANDEMIA - O JOVEM E A GERAÇÃO"NEM NEM"

Foto ilustração
Por: 
Ana Lídia Araújo
Estagiária sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

A pandemia do novo coronavirus não trouxe só mortes sequelas para a população, ela também está sendo responsável também pelo surgimento da geração “Nem Nem” que atinge a juventude cuja fase é marcada por mudanças e desafios.

Essa etapa é marcada pela transição para a vida adulta e durante a qual cada decisão influencia diretamente no futuro educacional e profissional dos jovens e o período em que a dedicação aos estudos, ao trabalho ou aos dois, simultaneamente se processa.

A crise pandêmica mundial impôs ovos obstáculos aos jovens brasileiros; afinal, diante dos protocolos de distanciamentos decretados pelos Estados e municípios e a suspensão das aulas presenciais fizeram com que essa parcela significativa aumentasse os índices de desempregos no país..

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cerca de 10,5 milhões de jovens nem estudam, nem trabalham. Eles correspondem a quase 24% da população de 15 a 29 anos. O risco é de que esse número aumente. Mais de 54% dos 44,3 milhões de jovens estão empregados, sendo que quase 13% conciliam o trabalho com os estudos e 22% apenas estudam. Os números foram calculados pelo Ipea a partir de dados coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) por meio da Pnad Contínua (2019) e da Pnad Covid19 (2020). Essa última tem caráter experimental durante a pandemia.



Segundo a pesquisadora do Ipea,  Enid Rocha e responsável pelo estudo  “A pandemia está desmotivando os jovens a buscarem emprego”, e “Esse número (de jovens desencorajados para procurar trabalho) pode aumentar muito. É difícil arriscar uma proporção, mas podemos dizer que esses jovens, por não estarem estudando nem trabalhando, ficarão sem acumular experiência e educação. Então, quando voltarem ao mercado, serão colocados para trás com relação à nova geração”, completa.

Economista e doutora em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Enid explica que é comum que os jovens nem-nem transitem dentro e fora do mercado de trabalho. “É típico da juventude ficar um tempo sem trabalhar e, depois, voltar. Entretanto, durante a pandemia, percebe-se que, embora eles queiram trabalhar, as necessárias medidas de isolamento social os têm impedido”, explica.

A totalidade dos jovens nem-nem (não trabalham, não estudam e não estão em treinamento) divide-se em dois conjuntos. O primeiro inclui os que que integram a força de trabalho porque estão procurando emprego; ou seja, estão desempregados, mas querem trabalhar e buscam oportunidades. O segundo conjunto é dos que estão fora da força de trabalho e não procuram emprego.

Incluem-se nesse segundo grupo jovens desencorajados, que desistiram de procurar trabalho porque acham que não existe emprego para eles; jovens que têm responsabilidades familiares e não estão disponíveis para o mercado de trabalho; e ainda jovens com alguma incapacidade física, problema de saúde ou gravidez e que, por isso, não podem trabalhar. A força de trabalho é composta por ocupados e desocupados (empregados e desempregados que procuram emprego).

Antes da pandemia, a proporção de jovens nem-nem fora da força de trabalho já era alta (57%). Com a crise sanitária, isso aumentou. A análise dos dados pelo Ipea revela que também cresceu a parcela dos jovens nem-nem desocupados. O que garante a subsistência dessas pessoas, muitas vezes, são ajudas do governo: em maio, a maior parte dos nem-nem recebia algum apoio entre Bolsa Família, Auxílio Emergencial e Benefício de Prestação Continuada (BPC).

O Ipea produziu um conjunto de propostas para o governo pensando no período pós-covid-19, considerando os diferentes motivos pelos quais os jovens viveram longos períodos de inatividade. Entre as estratégias sugeridas estão a oferta de uma segunda chance de escolarização, como a ampliação da Educação de Jovens e Adultos (EJA), maior oferta da educação infantil e busca ativa de quem está desvinculado do mercado. “Aproveitando toda a estrutura que o governo brasileiro tem e os programas existentes, seria possível fazer uma ação coordenada para alcançar esses jovens”, propõe a pesquisadora do instituto Enid Rocha.

Outro ponto importante é trabalhar as competências socioemocionais dos jovens, pois estudos revelam que a ausência dessas habilidades afeta mais drasticamente essa parte da população. “Os jovens nem-nem apresentam maiores dificuldades em relação à autoestima e a autoconfiança. Por isso, é muito importante ter programas de formação em habilidade socioemocionais. Afinal, muitos não sabem como se comportar em uma entrevista ou trabalhar em equipe”, enumera. Confira o documento com todas as recomendações no link.

Apesar de a baixa escolaridade ser um fator que diminui as chances de empregabilidade dos jovens, quem tem ensino superior também encontra dificuldade no mercado. Segundo pesquisa do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), feita com recém-formados entre 2014 e 2018, cerca de 45% dos graduados estão desempregados. Embora a taxa de ocupação ultrapasse 50%, apenas cerca de 25% conseguiram trabalho na área de formação em menos de três meses. Enquanto isso, aproximadamente 21% migraram para outras áreas de atuação diferentes da de formação. Dentre os desempregados, 18,76% estão há mais de um ano em busca de emprego.

Para Helenice Accioly, coordenadora de Seleção do Nube, o mercado está difícil para profissionais de diversas áreas e níveis de formação e não só por causa da pandemia. “A ideia de que quem tem ensino superior não fica sem emprego não faz mais sentido, pois, nos últimos anos, houve um crescimento no número de pessoas nas universidades e aumentou a concorrência de candidatos com esse nível de formação”, explica Helenice, formada em psicologia pela Universidade Paulista e pós-graduada em psicopatologia e saúde pública pela Universidade de São Paulo (USP).

Por isso, a dica dela para alcançar o tão sonhado cargo é nunca parar de estudar, manter-se atualizado e criar uma boa rede de contatos, para assim, estar ciente das melhores possibilidades. “O momento exige cada vez mais a qualificação do profissional”, aconselha Helenice.

Ainda segundo o estudo da Nube, a maioria (58,8%) dos recém-formados desempregados acredita que não conseguirá o “sim” nas entrevistas devido à falta de experiência necessária na área de atuação. Esse é caso de Ronan Bento de Castro, 24 anos, formado há menos de um ano em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB). O foco dele é trabalhar em alguma firma de consultoria. A busca, sem resultado até agora, começou pouco antes da pandemia. “Recebi o feedback de algumas empresas dizendo que eu ainda não me encaixava no perfil”, diz.

Durante a graduação, o jovem estagiou em órgãos públicos e dedicou-se a pesquisas e atividades complementares. “Eu tenho domínio das ferramentas necessárias. Porém, percebo que as empresas dão preferência para ex-estagiários. A ausência de experiência no setor privado pode ter me comprometido”, supõe. Agora, ele tenta usar o tempo livre para aprimorar o perfil profissional e tirar projetos pessoais do papel, como estudar para ingressar em uma segunda graduação. “Entrei em associações, grupos de profissionais que atuam em Brasília, acompanho as mídias, participo de lives e apresento meu perfil quando possível. Estou esperançoso, mas não coloco minha energia somente nisso”, conta.

Emanuele Silva, 20 anos, é exemplo da estatística que revela o aumento da desmotivação entre jovens. Desempregada desde maio, ela desistiu de procurar emprego após não receber nenhum retorno das oportunidades em que se inscreveu. “Mandei currículos, me cadastrei em sites de vagas e nenhuma empresa fez contato. Não fui chamada para nenhuma entrevista”, diz. O último trabalho foi como gerente de um lava-jato, do qual Emanuele pediu demissão. Na época, ela morava sozinha, mas hospedava em casa a mãe, que está grávida e passava por dificuldades financeiras, e a irmã de 10 anos.

“Com essa pandemia, não deu para continuar (trabalhando lá). Eu ficava muito exposta e minha mãe está em uma gravidez de risco. Então, estava deixando de ter contato com ela para poder trabalhar”, conta. Emanuele terminou o ensino médio em 2017 e teve diversos trabalhos, incluindo a subgerência de um posto de gasolina. “Trabalho desde muito nova, e o que você me der para fazer eu faço. Fui babá, secretária, trabalhei também em escritório de contabilidade, banca de verduras, vendi bolo no pote na rua”, comenta. Na opinião da jovem, a falta de oportunidades se dá em razão da pandemia e não do currículo, já que ela fez cursos de inglês e informática básica.

“Como uma pessoa que tem esse tanto de experiência não consegue um emprego, nem mesmo um bico? Isso é problemático”, pontua. Agora, desmotivada para buscar uma vaga formal, Emanuele planeja investir em um novo projeto. Há poucos meses, decidiu morar com o namorado, professor de cursinho para concursos e consultor legislativo, e deve ajudá-lo a preparar materiais de estudo. No entanto, as atividades do site só devem começar no fim deste mês e o retorno financeiro, a partir do ano que vem. “Até lá, fico dependendo dele”, conta.

Mesmo com muitos receios, Emanuele se diz empolgada com o projeto. “É um tiro no escuro, pois é um trabalho muito diferente e sem carteira assinada, mas, se der certo, será muito bom para mim, pois terei tempo para voltar para a faculdade”, diz. Em 2018, Emanuele iniciou o curso de saúde coletiva na Universidade de Brasília (UnB), mas precisou trancar para continuar trabalhando. Agora, ela deseja voltar para o ensino superior, desta vez, para cursar letras português e tornar-se professora.


Nem-nem ou sem-sem?

Há instituições e pesquisadores que sugerem trocar a terminologia “nem” por “sem”, usando o termo sem-sem (referindo-se a sem estudo e sem trabalho), já que, para muitos, o que falta é oportunidade. Chamar essa população de nem-nem traz uma falsa sensação de que os jovens estão nessa situação porque querem ou de que são responsáveis por isso, sendo que, muitas vezes, não é essa a realidade e, em vários casos, trata-se de um quadro temporário.

Como ficam os estágios?

O estágio é extremamente importante durante a vida acadêmica. No entanto, trabalhar e estudar ao mesmo tempo durante a pandemia é uma tarefa que exige ainda mais força de vontade. Isso porque a oferta de vagas de estagiário, assim como de emprego, caiu durante a crise sanitária em diversas instituições. Antes da pandemia, a média semanal de oportunidades no Núcleo Brasileiro de Estágios era de aproximadamente 5 mil. Entre abril e junho, esse número sofreu uma queda de 80%.

Com a diminuição da oferta de vagas, aumentou, consequentemente, a concorrência. Helenice Accioly, coordenadora de seleção do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), diz que não há como prever, com exatidão, como estará o quadro pós-crise. “Houve uma queda brusca no número de postos abertos, alcançando 92% em abril em relação ao mesmo período do ano passado. Contudo, ocorreu uma gradativa melhora no quadro desde então, chegando a 45% no mês de julho. Se a tendência de rápida recuperação perdurar, os estudantes podem ficar esperançosos”, diz.

Pesquisa feita entre 3 e 14 de agosto mostra que quase metade dos jovens está com dificuldade para achar uma vaga de estagiário, enquanto pouco mais da metade está otimista. Confira como os candidatos se sentem nessa busca:

53,68% Sim, estou otimista e devo encontrar uma em breve

40,24% Sim, mas não está sendo fácil

4,16% Depende, até quero, mas tem poucas oportunidades

1,23% Não, estou muito pessimista por conta da pandemia

0,69% Não, parei de procurar, só voltarei quando tudo passar

Fonte: Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube)


Para ler mais acesse, www: professortacianomedrado.com

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