De Pirapora a Petrolina: Hidrovia do São Francisco prepara mão de obra para portos

 

Navegação por hidrovia entre Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, parada desde 2012, terá treinamento de pequenos produtores, mas uva e manga do Vale do São Francisco dependem de barcos ainda por construir


Por meio do programa HN-500, também está prevista a capacitação de comunidades e pequenos produtores para atividades de recepção e escoamento da produção agrícola pela Hidrovia do Rio São Francisco. Foto: SG Denis Rocha/ Marinha do Brasil


Moradores de 18 municípios às margens do Rio São Francisco, em Minas Gerais, na Bahia e em Pernambuco, podem se inscrever em cursos gratuitos de logística do Programa Hidrovia Nacional do São Francisco (HN-500), que prepara a mão de obra local para a reativação da hidrovia, parada desde 2012. A preparação das comunidades e os pequenos portos públicos previstos ao longo do rio são as condições para que a produção da região, inclusive a da agricultura familiar, use a hidrovia, de acordo com o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), que detalhou o plano nesta terça-feira (3).


O HN-500 teve a aula inaugural em Ibotirama, na Bahia, em 28 de outubro, em encontro da Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba) e do Instituto Brasileiro de Gestão por Resultados (IBGR) com lideranças locais e a comunidade ribeirinha. O programa prevê um diagnóstico dos municípios da hidrovia, com as principais cadeias produtivas de cada um, e formação técnica gratuita, com cursos, oficinas e laboratórios, e inscrição pela plataforma do programa.


O secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Burlier, diz que o acesso dos pequenos produtores depende de pontos de embarque e de preparo para usar o transporte pelo rio. “Por isso, o projeto prevê pequenos portos públicos e capacitação das comunidades, considerando as características da produção local e as condições necessárias para transportar cada tipo de carga”, afirmou.


O estudo da hidrovia é conduzido pelo ministério e pela Codeba. Ele abrange 1.371 quilômetros do rio, de Pirapora, em Minas Gerais, ao polo de Juazeiro, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco, incluindo a Eclusa de Sobradinho, a passagem que permite aos barcos vencer o desnível da barragem.


O objetivo é baixar o custo do transporte e abrir novas rotas para a produção da região. Para o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, a retomada deve considerar também as necessidades dos pequenos produtores. “Queremos ampliar as opções de transporte para que a produção do interior chegue a mais mercados e com menor custo. Na retomada da Hidrovia do São Francisco, precisamos criar condições para que os agricultores familiares também possam utilizar essa infraestrutura e ampliar suas oportunidades de renda”, afirmou.


HN-500 divide o rio em três polos, de Pirapora a Petrolina


Os 18 municípios estão divididos em três polos. O Alto São Francisco, com sede em Pirapora, reúne Buritizeiro, Januária e Itacarambi, em Minas Gerais, e Carinhanha e Malhada, na Bahia, e o Central-Norte, com sede em Ibotirama, inclui Bom Jesus da Lapa, Serra do Ramalho, Sítio do Mato, Paratinga e Riacho de Santana, todos na Bahia. O Submédio, com sede em Juazeiro e Petrolina, tem ainda Barra, Xique-Xique, Sobradinho e Curaçá, também na Bahia.


O programa trabalha com a projeção de movimentar 5 milhões de toneladas de carga no primeiro ano de operação comercial, e cada comboio de balsas pode tirar 163 carretas das estradas. A formação busca preparar a população local para as vagas de trabalho e as oportunidades de venda que a volta da navegação pode abrir.


O diretor administrativo e financeiro da Codeba, Leandro Gaudenzi, diz que o objetivo é ter mão de obra da região pronta antes da volta da navegação. “A gente, hoje, começa a desenvolver, também, o bom ambiente de negócios, de estruturação e de qualificação de pessoas para quando a Hidrovia do São Francisco estiver em pleno funcionamento, tenhamos os pontos de distribuição logística estruturados com as pessoas da região”, afirmou.


Cinco cidades do corredor reúnem 10,6 mil estabelecimentos familiares


Petrolina, Juazeiro, Ibotirama, Sobradinho e Pirapora reúnem 10.628 estabelecimentos da agricultura familiar, ou 63,87% dos 16.639 estabelecimentos agropecuários desses municípios. Os números são do Censo Agropecuário 2017, o mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), organizados num painel da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) sobre a base de municípios de 2022.


Petrolina concentra o maior número de estabelecimentos familiares entre os cinco municípios: são 4.509, ou 64,25% do total local. Em Juazeiro, do outro lado do rio, são 4.402, o equivalente a 60,4%.


Ibotirama, na Bahia, tem a maior participação da agricultura familiar no grupo, com 1.185 estabelecimentos, 78,84% do total. No município, predominam a pecuária e a criação de outros animais, seguidas pelas lavouras temporárias, as que são colhidas a cada safra.


Em Sobradinho, onde fica a eclusa, 351 estabelecimentos são familiares, 62,57% do total municipal. Em Pirapora, ponto de partida do trecho em estudo, são 181, ou 67,29%.


Fruta irrigada fica para depois nas cargas da hidrovia


As principais cargas identificadas nos estudos da Codeba são a gipsita, mineral usado na agricultura e na construção civil, o caroço de algodão, a soja e o milho. A companhia também vê espaço para levar ração animal, biocombustíveis e açúcar destinado ao mercado interno.


A uva e a manga, que não estão nessa lista, são as lavouras de maior área em Petrolina: em 2025, a uva tinha 11.900 hectares e a manga, 11.450 hectares, dos 41.605 hectares plantados no município, pela Produção Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, em resultado preliminar. Em Juazeiro, a manga somava 14.003 hectares, atrás apenas da cana-de-açúcar, com 16.687 hectares, num total de 40.961 hectares.


As lavouras permanentes, cultivos que duram vários anos, como as árvores frutíferas, respondem por 45,85% de todos os estabelecimentos agropecuários de Petrolina, e não só dos familiares. Em Juazeiro, a fatia é de 36,92%.


A fruticultura irrigada aparece nos estudos apenas como atendimento futuro. De acordo com a Codeba, o transporte das frutas vai depender da construção de embarcações específicas, com tecnologia adequada a esse tipo de carga.


O ministério não informou prazo para concluir os estudos nem o custo da reativação. A nota de 3 de novembro também não atualiza o número de portos públicos previstos nem diz em quais cidades eles ficarão.


Projeto de 2025 previa 17 pequenos portos no Nordeste


O ministério autorizou a Codeba a estudar a reativação por portaria publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 26 de agosto de 2025. O projeto de então previa 17 Instalações Portuárias Públicas de Pequeno Porte (IP4), para cargas e passageiros, na Bahia, em Pernambuco e em Alagoas, das quais seis estavam em fase de projeto e 11 em planejamento.


Os editais das IP4 de Petrolina e Juazeiro estavam previstos para setembro de 2025, com obras a partir de janeiro de 2026. Em maio de 2026, o projeto seguia na fase de modelagem econômica, com o cronograma preso à liberação do licenciamento ambiental, e o governo federal esperava operações de carga ainda neste ano, de acordo com reportagem da Band.


A nota de 3 de novembro de 2026 trata a reativação como projeto em estudo e não informa a situação dos editais das IP4 nem do licenciamento. Ela também não diz se os pequenos portos públicos citados agora são as mesmas instalações previstas em 2025.


Navegação comercial no rio está parada desde 2012


A navegação no trecho está parada desde 2012, em grande parte pelo assoreamento do rio, o acúmulo de bancos de areia causado pela falta de dragagem. Em novembro de 2025, o MPor previa fazer em 2026 a licitação para que uma empresa privada operasse a hidrovia, e a Codeba havia contratado a estatal Infra S.A. para desenhar o modelo da concessão, que precisa da aprovação da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).


O plano divide a hidrovia em três etapas. A primeira usa os 604 quilômetros já navegáveis entre Juazeiro, Petrolina, Sobradinho e Ibotirama, com cargas seguindo por estrada até o Porto de Aratu-Candeias, na Bahia. A segunda cobre 172 quilômetros, também navegáveis, entre Ibotirama, Bom Jesus da Lapa e Cariacá, com ligação por trem aos portos de Ilhéus e Aratu-Candeias, e a terceira, de 670 quilômetros, leva a Pirapora e depende de obras na calha do rio e de dragagem.


Em 2025, o plano previa levar gesso agrícola, gipsita, placas de gesso para construção (drywall) e calcário de Petrolina a Pirapora, açúcar e óleo de Juazeiro para Minas Gerais e sal do Rio Grande do Norte, que entraria no rio em Remanso, na Bahia. O café faria o caminho inverso, de Pirapora a Juazeiro e Petrolina, enquanto milho, soja e algodão de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, no oeste baiano, chegariam por estrada a Ibotirama para descer o rio até Juazeiro.


Em maio de 2026, a previsão para o primeiro ano tinha foco em frutas, soja, milho e algodão, segundo a Band. Na nota de agora, a Codeba trata a fruticultura irrigada como atendimento futuro, que depende de embarcações ainda por construir.


Fonte: site Movimento Econômico, com informações do MPor e da Codeba

 

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