ESCALA 6X 1 – A VERDADE QUE LULA ESCONDE



Por Taciano Medrado*


A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6x1, comemorada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, traz à tona uma questão que merece atenção: quem vai pagar a conta da mudança? Segundo estimativa da Confederação Nacional de Municípios (CNM), a redução da jornada de trabalho poderá gerar um impacto de R$ 5,14 bilhões por ano nos cofres municipais, apenas com trabalhadores terceirizados que prestam serviços às prefeituras brasileiras.


De acordo com o levantamento da entidade, o custo total da medida para os municípios poderá alcançar R$ 6,6 bilhões anuais, considerando também aproximadamente R$ 1,49 bilhão em despesas relacionadas à contratação direta de servidores.


A estimativa leva em conta a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que prevê a redução do limite da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas.


A conta pode chegar às prefeituras


Segundo o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, a redução da jornada exigirá, em muitos casos, a ampliação das equipes das empresas terceirizadas para garantir a continuidade dos serviços públicos. Com isso, os custos adicionais poderão ser repassados às administrações municipais, pressionando ainda mais os orçamentos das cidades.


O alerta da entidade é pertinente: muitos municípios brasileiros enfrentam dificuldades financeiras para manter serviços essenciais e cumprir suas obrigações. Sem recursos adicionais ou planejamento orçamentário adequado, a mudança poderá comprometer contratos e afetar a qualidade dos serviços oferecidos à população.


A discussão, portanto, não se limita à relação entre empregadores e trabalhadores. Também envolve a capacidade financeira do poder público de absorver os custos decorrentes de uma eventual alteração na legislação trabalhista.


Impacto varia conforme o tamanho do município


A pesquisa da CNM ouviu gestores de 2.146 municípios, o equivalente a 38,6% das cidades brasileiras. Entre os participantes, 75% informaram contratar serviços terceirizados.


De acordo com as estimativas apresentadas pela entidade, o impacto financeiro médio anual poderá variar significativamente conforme o porte do município:

 

 Pequeno porte: aproximadamente R$ 447 mil por ano;

 Médio porte: cerca de R$ 2,2 milhões por ano;

Grandes cidades: até R$ 28,8 milhões an


O levantamento aponta ainda que mais de 1 milhão de trabalhadores terceirizados prestam serviços às administrações municipais brasileiras. Em 21% das prefeituras consultadas, o número desses profissionais supera cem trabalhadores.


Entre as atividades mais frequentemente terceirizadas estão a conservação, a limpeza urbana e o manejo de resíduos sólidos, mencionados por 69% dos gestores. Também aparecem a manutenção de prédios e equipamentos (44%), os serviços de informática (29%) e a segurança e vigilância (27%).


Terceirização é essencial para a gestão municipal


A pesquisa também identificou as principais razões que levam as prefeituras a contratar empresas terceirizadas. Para 57% dos gestores, a principal justificativa é a demanda por serviços superior à capacidade do quadro próprio de funcionários. Outros 42% mencionaram a redução de custos, enquanto 40% apontaram dificuldades para manter profissionais nas equipes municipais.


Os dados demonstram que a terceirização ocupa papel importante na organização dos serviços públicos locais. Em muitas cidades, esse modelo é utilizado para atender às necessidades da população sem ampliar diretamente o quadro de servidores.


Nesse cenário, uma redução da jornada semanal poderá exigir ajustes nos contratos, novas contratações pelas empresas prestadoras de serviços e, consequentemente, mais recursos públicos para manter o funcionamento das atividades.


O discurso político e a realidade das contas públicas


A defesa de melhores condições de trabalho e de mais tempo para o convívio familiar é uma pauta legítima. Entretanto, mudanças dessa dimensão exigem planejamento, avaliação dos impactos econômicos e definição clara de quem arcará com os custos.


Comemorar uma proposta como conquista política é uma coisa; garantir que ela seja financeiramente sustentável é outra.


O ponto central do alerta da CNM é que os custos não desaparecem com a aprovação de uma nova regra. Eles precisam ser absorvidos por alguém: empresas, contratantes ou, no caso dos serviços públicos municipais, os contribuintes.


Se as prefeituras tiverem de pagar mais pelos mesmos serviços sem receber recursos adicionais, poderão enfrentar dificuldades para equilibrar seus orçamentos. E, quando a conta pública não fecha, a população corre o risco de sentir os efeitos na limpeza urbana, na manutenção dos espaços públicos, na segurança e em outros serviços essenciais.


A discussão sobre a escala 6x1, portanto, precisa ir além das comemorações políticas. É necessário conciliar os direitos dos trabalhadores com a realidade financeira das empresas e dos municípios, evitando que uma mudança anunciada como avanço social acabe se transformando em mais uma fonte de pressão sobre os cofres públicos.


O trabalhador merece melhores condições de vida, mas o contribuinte também merece saber quanto custarão as decisões tomadas em seu nome.


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