Janja da
Silva apela aos evangélicos, público que o governo Lula 3 ignorou ao longo de
quase quatro anos
Por
Taciano Medrado*
Olá caríssimos leitores,
A cena que viralizou nas redes sociais de Janja da Silva em um vídeo, com voz mansinha se dirigindo ao público evangélico reacende a velha questão de que Lulopetismo faz de tudo pra vencer uma eleição até Janja, a bocuda depravada e sem filtro 1ª dama do pais virar a melhor alma do mundo.
Esse fato me lembra da Vice candidata a presidente na chapa Haddad, na eleições de 2018, a ex- comunista Manuela d'Ávila que militou no partido comunista por 25 anos, e hoje filiada ao PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) que até rezar na igreja e consumir a hóstia sagrada fez, não deu certo, o pecado lhe custou a derrota fragorosa nas urnas para Jair Bolsonaro.
Mas a política pode ter memória curta para quem está no poder, mas o eleitor tem o direito
de lembrar. E é justamente em períodos eleitorais que determinadas iniciativas
despertam questionamentos sobre suas reais motivações: seriam fruto de uma
convicção sincera ou de uma estratégia para conquistar votos?
A
primeira-dama Janja da Silva gravou um vídeo direcionado ao público evangélico
para anunciar o lançamento do comitê virtual “Evangélicos e Evangélicas com
Lula”, iniciativa vinculada ao Partido dos Trabalhadores (PT) e voltada à
mobilização de fiéis em apoio à candidatura à reeleição do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva.
A
iniciativa merece uma reflexão crítica. Afinal, por que intensificar agora o
diálogo com um segmento religioso que, durante boa parte do governo Lula 3,
demonstrou resistência ao projeto político petista?
O eleitor
evangélico não pode ser tratado como massa de manobra
O
eleitorado evangélico representa uma parcela expressiva da sociedade
brasileira, formada por cidadãos com diferentes realidades sociais, econômicas
e políticas. Não se trata de um grupo homogêneo, tampouco de uma reserva de
votos pertencente a qualquer partido.
Entretanto,
a aproximação de Janja com esse público, em um momento de disputa eleitoral,
levanta uma questão legítima: por que o diálogo com os evangélicos ganha tanta
importância justamente quando o governo precisa conquistar apoio e reduzir
resistências?
Para os
críticos do governo petista, a iniciativa tem aparência de movimento calculado
para tentar reverter a rejeição de parte desse eleitorado e conter o avanço do
senador Flávio Bolsonaro entre os eleitores conservadores e religiosos.
O
problema não está em um governante ou representante político procurar os
evangélicos. Em uma democracia, dialogar com diferentes segmentos da sociedade
é legítimo e necessário. A contradição aparece quando esse diálogo parece
ganhar prioridade apenas diante da necessidade de conquistar votos.
Quase
quatro anos de governo e uma aproximação em momento decisivo
O governo
Lula 3 teve a oportunidade de construir uma relação mais consistente com os
segmentos religiosos do país ao longo de seu mandato. Agora, a criação de um
comitê específico para mobilizar evangélicos em favor do presidente coloca em
evidência a dimensão eleitoral dessa aproximação.
A
pergunta que fica é direta: trata-se de uma mudança genuína de postura ou de
uma estratégia para conquistar um eleitorado cuja preferência pode ser decisiva
nas urnas?
O eleitor
tem o direito de cobrar coerência entre discurso e prática. Não basta aparecer
em vídeos, criar comitês virtuais e utilizar uma linguagem de aproximação
religiosa durante uma campanha. É preciso demonstrar, por meio de ações
concretas, respeito à liberdade de crença, às convicções das famílias e à
diversidade de posições existentes na sociedade brasileira.
Também é
importante reconhecer que os evangélicos não pensam todos da mesma maneira. Há
fiéis que apoiam Lula, outros que preferem candidatos conservadores e muitos
que avaliam suas escolhas a partir de questões econômicas, sociais e morais.
Nenhum partido tem o direito de reivindicar a representação exclusiva desse
público.
A disputa
pelo voto conservador
A
aproximação de Janja com os evangélicos ocorre em um cenário de disputa pelo
voto conservador, segmento no qual Flávio Bolsonaro busca consolidar sua base
de apoio. Nesse contexto, a mobilização petista pode ser interpretada como uma
tentativa de reduzir resistências e ampliar o alcance eleitoral da candidatura
governista.
Contudo,
não se deve confundir estratégia política com resultado garantido. A criação de
um comitê e a divulgação de vídeos não significam, por si sós, que haverá
mudança na intenção de voto dos fiéis.
A decisão
final pertence ao eleitor, que deve avaliar os candidatos com autonomia, sem se
deixar conduzir por discursos de ocasião, apelos emocionais ou tentativas de
instrumentalizar a fé para fins eleitorais.
A
religião não pode ser transformada em moeda de troca política. Da mesma forma,
a crítica a um governo não deve ser confundida com hostilidade a uma religião
ou a seus seguidores.
A fé não
deve ser usada como atalho eleitoral
O Brasil
é um Estado laico, no qual a liberdade religiosa e a participação política são
direitos fundamentais. Isso significa que evangélicos, católicos, espíritas,
adeptos de outras religiões e pessoas sem religião têm o mesmo direito de
participar do debate público e escolher seus representantes.
O que
merece crítica é a eventual utilização oportunista da fé como instrumento de
campanha. Se a aproximação com os evangélicos é sincera, ela deve se sustentar
para além do calendário eleitoral. Se é apenas uma tentativa de reverter a
rejeição ao governo, caberá ao eleitor perceber a diferença.
O voto
não é propriedade de partido, e a fé não é instrumento de propaganda eleitoral.
Janja
pode dialogar com os evangélicos, assim como qualquer representante político
pode procurar os diversos segmentos da sociedade. Mas esse diálogo precisa ser
acompanhado de coerência, respeito e ações concretas, não apenas de discursos
produzidos em momentos decisivos da disputa pelo poder.
O eleitor
dará a resposta nas urnas
No fim
das contas, a questão central não é se Janja tem o direito de procurar os
evangélicos — ela tem. A questão é se essa aproximação conseguirá convencer um
eleitorado que possui suas próprias convicções, prioridades e capacidade de
julgamento.
O governo
Lula 3 não pode esperar que a simples criação de um comitê virtual apague
divergências acumuladas ou substitua uma avaliação crítica de sua gestão.
Tampouco pode presumir que a fé de milhões de brasileiros esteja à disposição
de qualquer projeto partidário.
A fé não
se compra com discursos, a confiança não se conquista por decreto e o voto não
se transfere por conveniência política.
O eleitor
evangélico, assim como qualquer cidadão brasileiro, tem o direito de ouvir,
questionar, comparar e decidir livremente. No domingo editorial do TMNews do
Vale, fica a reflexão: quando a política se aproxima da religião em busca de
votos, cabe à sociedade distinguir o diálogo legítimo do oportunismo eleitoral.
A palavra
final, como deve ser em uma democracia, pertence ao eleitor.
(*)
Professor, analista político e redator chefe do TMNews do Vale - a informação
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