PRONUNCIAMENTO SEM PERGUNTAS: quando a autoridade fala e a imprensa apenas escuta?

Alexandre de Moraes marca novo pronunciamento para segunda-feira, mas imprensa não poderá fazer perguntas

Foto criada pela equipe do TMNews do Vale com auxílio da ferramenta de geração de imagens da I.A

Por Taciano Medrado*

Olá carissimos leitores

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), marcou para a próxima segunda-feira (14) um novo pronunciamento público. Até aí, nada de extraordinário. O que chama atenção é o formato escolhido: o ministro falará, mas os jornalistas não poderão fazer perguntas.

É preciso separar as coisas.

Uma autoridade pública tem, evidentemente, o direito de se manifestar e apresentar sua versão dos fatos. Mas a imprensa também exerce uma função essencial em uma democracia: perguntar, confrontar informações, buscar esclarecimentos e cobrar respostas.

Quando um pronunciamento é previamente estruturado para que apenas uma das partes fale, sem possibilidade de questionamento, ele deixa de ter as características de uma entrevista coletiva e passa a se aproximar de uma comunicação unilateral.

Falar é um direito. Perguntar também.

A questão não é pessoalmente contra Alexandre de Moraes. A discussão é institucional.

Ministros do Supremo Tribunal Federal ocupam uma das posições mais relevantes da República. Suas decisões produzem efeitos que ultrapassam os limites do próprio tribunal e alcançam diretamente cidadãos, parlamentares, partidos, instituições e o próprio funcionamento do Estado brasileiro.

Por isso, quando um ministro decide falar publicamente em meio a uma crise institucional, é natural que existam perguntas.

Por que determinadas decisões foram tomadas? Quais são seus fundamentos? Quais serão seus próximos passos? Como o ministro responde às críticas? Como enxerga as divergências dentro da própria Corte?

Essas perguntas fazem parte do trabalho jornalístico.

Impedir que sejam feitas pode até garantir maior controle sobre a mensagem que será transmitida, mas reduz significativamente a possibilidade de esclarecimento público.
O momento escolhido aumenta a expectativa

O pronunciamento ocorrerá na segunda-feira, um dia antes da sessão plenária do STF convocada pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin.

A coincidência de datas torna a manifestação ainda mais relevante.

O Supremo atravessa um período de forte tensão institucional, com decisões divergentes e manifestações públicas de diferentes ministros. Nesse ambiente, qualquer declaração de Moraes certamente será analisada não apenas pelo conteúdo, mas também pelo contexto em que será apresentada.

E existe uma pergunta inevitável:

Se não haverá espaço para perguntas, por que não realizar simplesmente uma comunicação oficial por escrito?

A presença da imprensa sugere justamente a possibilidade de dar transparência aos acontecimentos. Entretanto, se os jornalistas estarão presentes apenas para ouvir, sem poder questionar, fica a impressão de que se pretende controlar não apenas a mensagem, mas também o ambiente em que ela será recebida.

O Supremo também precisa prestar contas à sociedade

É importante lembrar que o STF não é uma instituição privada. Seus ministros exercem funções públicas e suas decisões possuem impacto direto sobre a sociedade brasileira.

Isso não significa que ministros devam ser submetidos a constrangimentos ou transformados em alvos de ataques pessoais.

Significa apenas que autoridade pública não deve ser confundida com autoridade incontestável.

Em uma democracia, quanto maior o poder institucional, maior deveria ser também a disposição para prestar esclarecimentos.
Editorial

O TMNews do Vale entende que pronunciamentos oficiais são legítimos, mas o jornalismo não pode ser reduzido a mero espectador de discursos previamente preparados.

A imprensa não existe apenas para reproduzir declarações.

Existe também para perguntar.

Existe para confrontar.

Existe para esclarecer.

Existe para cobrar.

E, principalmente, existe para levar ao cidadão aquilo que muitas vezes não aparece em uma fala cuidadosamente preparada.

Alexandre de Moraes falará na segunda-feira.

A sociedade brasileira ouvirá.

Mas fica uma questão que não poderá ser feita pelos jornalistas dentro da sala:

Quem controla a pergunta também pode controlar a narrativa?

Em tempos de tensão institucional, talvez essa seja justamente a pergunta que mais mereça ser respondida.

(*) Redator-chefe do TMNews do Vale - A informação independente que aproxima sem meias verdades

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