Por Taciano Medrado*
Há momentos em que a política deixa de ser apenas disputa de ideias e passa a revelar uma preocupante incapacidade de enxergar a realidade para além da conveniência ideológica. O chamado Caso Master é mais um episódio que exige investigação, transparência e responsabilidade institucional, mas que, para determinados setores da esquerda brasileira, parece ser interpretado conforme a velha lógica do “dois pesos e duas medidas”.
O problema não está em defender posições políticas de esquerda. O pluralismo é indispensável à democracia. O problema surge quando a ideologia passa a funcionar como uma espécie de venda sobre os olhos, impedindo que determinados fatos sejam analisados com o mesmo rigor utilizado contra adversários políticos.
Quando surgem denúncias, suspeitas ou questionamentos envolvendo personagens do campo político adversário, parte da militância e de seus porta-vozes rapidamente transforma suspeitas em condenações definitivas. Entretanto, quando as mesmas instituições, autoridades ou grupos próximos de seu espectro político aparecem envolvidos em controvérsias, a indignação parece perder força, dando lugar ao silêncio, à relativização ou à tentativa de mudar o foco do debate.
É justamente essa postura que precisa ser questionada.
Democracia não pode funcionar à base de torcida organizada. Investigação não pode depender de quem é o investigado. Corrupção, tráfico de influência, favorecimento, irregularidades financeiras ou qualquer outro ilícito, quando comprovados, devem receber o mesmo tratamento — seja o suspeito de direita, de esquerda, de centro ou simplesmente alguém sem partido.
O Caso Master, portanto, deveria servir como oportunidade para uma discussão muito maior: até quando o Brasil continuará permitindo que interesses políticos contaminem o debate sobre instituições, Justiça e responsabilidade pública?
Não se trata de condenar antecipadamente ninguém. Ao contrário. É justamente porque acusações precisam ser comprovadas que todos os envolvidos devem ter direito à defesa, ao contraditório e ao devido processo legal. Mas isso vale para todos — não apenas para aqueles que pertencem ao grupo político de nossa preferência.
A chamada “esquerda reacionária”, quando abandona princípios universais em nome da conveniência partidária, termina reproduzindo exatamente aquilo que afirma combater: intolerância, seletividade e patrulhamento ideológico.
E há uma contradição ainda maior: setores que historicamente se apresentam como defensores da ciência, da racionalidade e da justiça social não podem escolher quais fatos merecem indignação simplesmente porque a realidade pode atingir aliados.
A verdade não tem partido. A investigação não tem ideologia. E a Justiça não pode ter lado.
O Brasil precisa superar a política de arquibancada, na qual cada grupo comemora quando o adversário é investigado e protesta quando alguém do próprio campo é questionado.
Se houve irregularidades no Caso Master, que sejam rigorosamente investigadas. Se não houve crime, que os acusados sejam inocentados. Se houver responsabilidades, que os responsáveis respondam perante a Justiça.
O que não podemos aceitar é que a ideologia determine previamente quem deve ser tratado como culpado e quem merece o benefício da dúvida.
A democracia brasileira não precisa de cegueira ideológica. Precisa de olhos abertos, instituições independentes e coragem para aplicar a mesma régua a todos.
Esse é o verdadeiro teste de maturidade política de uma sociedade.
(*) TMNews do Vale - Opinião editorial — o espaço para o debate crítico e plural.
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