A Esquerda brasileira e a incoerente distância entre o discurso e a prática

A verdade do Lulopetismo que muitos não querem enxergar

Foto criada pela equipe do TMNews do Vale com auxílio da ferramenta de geração de imagens da I.A

Por Taciano Medrado*

Olá, caríssimos leitores!

O Partido dos Trabalhadores (PT) completou, em fevereiro deste ano, 46 anos de existência. Fundado em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion, em São Paulo, o partido nasceu apresentando-se como uma alternativa política voltada à defesa dos trabalhadores, ao combate às desigualdades e à transformação da realidade social brasileira.

Passadas mais de quatro décadas, entretanto, uma pergunta permanece absolutamente legítima: 

até quando o velho discurso continuará sendo utilizado como principal argumento político para justificar um projeto que já teve tantos anos para apresentar resultados estruturais?

É justamente aí que reside uma das grandes contradições do chamado lulopetismo.

Durante décadas, ouvimos que o PT seria o partido dos pobres, dos trabalhadores e daqueles que mais precisam do Estado. O discurso continua praticamente o mesmo: combater a pobreza, reduzir as desigualdades e promover inclusão social.

Mas a realidade brasileira exige que o cidadão olhe além do discurso político e observe os números.

Os números oficiais mostram uma realidade que não pode ser ignorada

Segundo dados da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, divulgados em dezembro de 2025, 48,9 milhões de brasileiros estavam abaixo da linha de pobreza em 2024, o equivalente a 23,1% da população.

É importante fazer justiça aos números: houve, sim, uma redução significativa em relação a 2023, quando eram aproximadamente 57,6 milhões de pessoas nessa condição. Ou seja, 8,6 milhões de brasileiros deixaram a linha de pobreza entre 2023 e 2024.

Também houve redução da extrema pobreza: o contingente caiu de aproximadamente 9,3 milhões para 7,4 milhões de pessoas, enquanto a proporção recuou de 4,4% para 3,5% da população. Os dois indicadores atingiram, em 2024, os menores níveis da série histórica iniciada em 2012.

Mas é justamente aqui que precisamos separar resultado conjuntural de solução estrutural.

Porque comemorar a redução da pobreza é legítimo. Transformar essa redução em argumento de que o problema está resolvido é outra coisa.

Quase 49 milhões de brasileiros ainda estavam abaixo da linha de pobreza em 2024.

E estamos falando de um país que já passou por décadas de governos, programas sociais, expansão da máquina pública e diferentes experiências econômicas.

Pobreza não pode ser combatida  não pode ser combatida apenas com transferência de renda.

O próprio IBGE mostra a importância dos programas sociais nesse processo. Sem os benefícios sociais, a proporção de pessoas em extrema pobreza teria sido de aproximadamente 10%, contra os 3,5% observados; no caso da pobreza, o índice teria chegado a 28,7%, em vez dos 23,1% registrados.

Isso demonstra que programas de transferência de renda possuem impacto real na vida de milhões de brasileiros.

Mas também nos obriga a fazer outra pergunta:

Qual é o limite de um modelo que precisa manter milhões de pessoas dependentes permanentemente de benefícios públicos para permanecer acima da linha de pobreza?

Não se trata de defender o fim da assistência social. Muito pelo contrário. Uma sociedade minimamente justa precisa proteger aqueles que estão em situação de vulnerabilidade.

O problema começa quando a assistência deixa de ser uma ponte para a autonomia e passa a ser apresentada como solução definitiva para a pobreza.

O verdadeiro desafio deveria ser criar condições para que o cidadão possa sair da dependência do benefício por meio de emprego, educação de qualidade, qualificação profissional, empreendedorismo, produtividade, segurança jurídica e crescimento econômico sustentável.

O discurso é antigo. O Brasil também. 

O discurso político do PT continua recorrendo frequentemente à ideia de que existe, de um lado, um projeto que representa os pobres e, do outro, aqueles que supostamente representam os interesses dos ricos.

Essa divisão simplificada pode funcionar eleitoralmente, mas não resolve os problemas estruturais do país.

O Brasil precisa de menos guerra política entre classes e mais oportunidades para que pessoas pobres possam deixar de ser pobres.

Precisa de uma economia capaz de gerar empregos produtivos e bem remunerados, de escolas que realmente preparem os jovens para o mercado de trabalho, de infraestrutura, de segurança, de ambiente favorável aos investimentos e de um Estado que consiga entregar serviços públicos de qualidade.

A pobreza não desaparece porque um governo repete inúmeras vezes que combate a pobreza.

Ela desaparece quando as condições econômicas e sociais permitem que o cidadão construa a própria independência.

A incoerência está na distância entre o discurso e a prática 

E é justamente nessa distância entre discurso e realidade que está uma das maiores críticas que podem ser feitas ao lulopetismo.

O PT nasceu defendendo a emancipação dos trabalhadores e afirmando que as grandes maiorias deveriam conquistar autonomia política, econômica e social. O próprio manifesto de fundação do partido fala em emancipação das massas populares e na luta contra uma estrutura que manteria trabalhadores em situação de exploração.

Passados 46 anos, entretanto, ainda temos dezenas de milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza.

Isso não significa que toda essa realidade seja responsabilidade exclusiva do PT ou dos governos Lula. Seria intelectualmente desonesto fazer essa afirmação. A pobreza brasileira é histórica, complexa e atravessa diferentes governos e períodos econômicos.

Mas também seria equivocado aceitar que, depois de tantos anos de poder e de políticas sociais, qualquer redução conjuntural seja apresentada como prova definitiva de que o modelo está funcionando plenamente.

É preciso cobrar mais.

Muito mais.

O Brasil precisa de cidadãos livres, não de eleitores de cabrestos e eternamente dependentes 

Talvez o maior desafio seja justamente romper com uma lógica política que transforma a pobreza em instrumento permanente de disputa eleitoral.

O pobre não precisa ser eternamente pobre para continuar merecendo atenção do Estado.

O trabalhador não precisa permanecer dependente de programas sociais para ser lembrado pelo governo.

E o cidadão não deveria ser tratado como simples beneficiário de políticas públicas, mas como protagonista da própria transformação.

Um país verdadeiramente desenvolvido não é aquele que apenas consegue ampliar benefícios para os mais pobres.

É aquele que consegue criar condições para que cada vez menos pessoas precisem deles.

Por fim, O Brasil avançou em alguns indicadores sociais recentes, e os números do IBGE precisam ser reconhecidos com honestidade. 8,6 milhões de pessoas deixaram a pobreza entre 2023 e 2024, e a extrema pobreza também recuou. Mas reconhecer um avanço não significa encerrar o debate.

Ainda existem 48,9 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza.

E é justamente por eles que precisamos exigir mais do Estado, mais dos governos e mais dos políticos.

O Brasil não pode viver eternamente do velho discurso de que está combatendo a pobreza.

É preciso criar as condições para vencê-la.

Porque, no final das contas, o maior programa social que um país pode oferecer ao seu povo continua sendo a oportunidade de trabalhar, produzir, prosperar e conquistar independência com dignidade.

O discurso pode ter 46 anos.

O desafio brasileiro, infelizmente, continua atual.

(*) Taciano Medrado é Professor, psicopedagogo, analista político e diretor-geral/redator-chefe do TMNews do Vale.

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