Decreto assinado em 2018 pelo governo do PT na Bahia facilitou empréstimos do cartão Credcesta 16 dias depois da privatização; em 2022, novo ato proibiu funcionários públicos baianos de transferirem dívidas para outros bancos com juros menores; citados negam irregularidades
A arquitetura da maior fraude financeira da história do Brasil jamais teria sido possível se Daniel Vorcaro, do Banco Master, não tivesse se associado ao empresário baiano Augusto Lima, no final de 2018. E Augusto Lima, o Guga, não teria prosperado sem a ajuda direta dos políticos petistas mais famosos da Bahia, Jaques Wagner e Rui Costa.
Esta reportagem revela nos próximos parágrafos a aproximação do comando do PT na Bahia com Guga Lima. Detalha como as conexões criadas foram a gênese do que viria a ser o Banco Master com Daniel Vorcaro. E mostra o nexo causal entre vários fatos encadeados que resultaram na investigação da Polícia Federal sobre o possível tráfico de influência que é imputado a Jaques Wagner –algo que o senador nega, apesar do volume expressivo de indícios mostrando o contrário– e também a atuação decisiva a favor do Master por parte de Rui Costa quando foi governador da Bahia.
O relatório da PF (Leia na integra) sobre Wagner teve há alguns dias seu sigilo retirado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Só que o documento de 98 páginas passa apenas de raspão na origem do caso Master: o cartão Credcesta, que não tem nada de cesta. Tratava-se de um produto financeiro estatal que foi vendido pelo PT da Bahia e turbinado pela administração petista para dar lucro na iniciativa privada.
O Credcesta era voltado para conceder empréstimos consignados a funcionários públicos baianos. Cobrava juros sempre mais altos do que os praticados pelo mercado. Uma mina de ouro na forma de benemerência dada pelo Estado da Bahia governado pelo PT. O Credcesta enriqueceu Augusto Lima, que se associou a Vorcaro.
Em suma, o PT da Bahia deu régua e compasso para Augusto Lima e Daniel Vorcaro. Depois, eles levaram a tecnologia para 24 Estados e 176 cidades. Ficaram bilionários.
Quando ainda era estatal, a operação do Credcesta era considerada um mico pelo mercado. O governo da Bahia queria se desfazer dessa operação, criada nos anos 1980 por Antônio Carlos Magalhães (1927-2007). O cartão replicava o que existia há décadas em mercearias pelo interior do Brasil: venda fiado de produtos.
ACM criou um sistema em que os 280 mil funcionários públicos da Bahia podiam comprar alimentos numa cadeia de supermercados montada pelo governo estadual. Posteriormente, o modelo evoluiu para a utilização de um cartão (o Credcesta, nascido no Cesta do Povo) em que o valor gasto só caía no fim do mês, descontado dos salários. Isso mesmo: a Bahia tinha uma rede estatal de supermercados, a Ebal (Empresa Baiana de Alimentos).
Ao longo dos anos, a Ebal se tornou uma catástrofe financeira e uma usina de problemas. O PT comanda a Bahia desde 2007. O partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um fervoroso admirador de operações estatais, mas logo percebeu que esse negócio não poderia ser recuperado nem nunca daria certo.
Houve duas tentativas frustradas de venda da Ebal pelo PT no governo da Bahia. Ninguém se interessou em assumir o negócio. Na 3ª tentativa, em 2018, o ativo foi privatizado pelo então governador, Rui Costa (PT). O Estado da Bahia recebeu um valor simbólico: R$ 15 milhões.
A operação foi esquisita. Participaram um empresário espanhol e outro da Bahia, mas o comprador real e definitivo dessa geringonça deficitária foi Guga Lima. Os outros 2 nunca mais apareceram.
Até participar do processo de privatização da Ebal e do Credcesta, Augusto Ferreira Lima era conhecido por negócios de médio impacto. Ele havia tido, por exemplo, uma operação de venda de abadás em Salvador. Atuava um pouco no mercado imobiliário. Nada que chamasse muito a atenção.
Tudo mudou com o Credcesta. Nas mãos de Guga Lima, o negócio micado virou uma potência da noite para o dia. Ele não fez mágica nem é um mestre em modelos de administração. Só fez política alicerçada em sólidas relações de amizade com os poderosos da política da Bahia.
Antes de comprar a Ebal e o Credcesta, Guga Lima articulou tudo com os 2 políticos mais relevantes do PT da Bahia –Rui Costa, já mencionado, e o hoje senador Jaques Wagner.
Nas conversas, Guga deixava bem claro: a Ebal e seus supermercados não valiam nada. O Credcesta, sim, tinha um grande potencial. Não para comprar comida fiado. Mas para virar um cartão para empréstimos consignados –o que não era a finalidade inicial, quando o negócio havia sido concebido décadas antes.
Os petistas baianos entenderam direitinho. Foram generosos com Guga Lima. Apenas 16 dias depois de o Credcesta ter sido privatizado, o novo dono recebeu um presente: foram baixados 2 decretos estaduais que mudaram o jogo. ...
Os decretos foram articulados em 2018, com Jaques Wagner ainda atuando como secretário estadual de Desenvolvimento Econômico da Bahia. Coube ao então governador, Rui Costa, assinar essas medidas. Os documentos eram muito falados, mas as íntegras andavam sumidas. O Poder360 achou tudo e publica os links ao longo desta reportagem....
Por obra da generosidade de Jaques Wagner e Rui Costa, o Credcesta deixou de ser um cartão mixuruca que só comprava arroz e feijão para se transformar numa potência financeira. Privatizado, o produto passou a ter estas características extras:
saque em dinheiro – 16 dias depois de privatizado, passou a ser possível para os 280 mil funcionários públicos da Bahia tomar empréstimo e sacar dinheiro com o Credcesta. O valor sacado virava empréstimo consignado a juros próximos de 5% ao mês. Bastava ter o cartão para receber o dinheiro na conta na hora que quisesse;
aumento do limite para comprometer o salário – para azeitar o negócio, foi necessário permitir que os funcionários públicos baianos pudessem ampliar o limite a ser comprometido do salário com empréstimos consignados. Assim foi feito. No decreto de Rui Costa ficou estabelecido que cada funcionário público baiano poderia comprometer 30% do salário com novos empréstimos consignados, mas com uma condição importante: desde que fossem via Credcesta.
Nem tráfico de drogas dá tanto dinheiro. E no Credcesta o risco é zero.
Os funcionários públicos da Bahia não tinham como dar calote. As prestações do empréstimo eram descontadas automaticamente do salário, com taxa de juros estratosférica, na casa de 5% ao mês. Como funcionário público nunca é demitido, o lucro é eterno para quem deu o dinheiro emprestado.
A taxa de juros de 5% ao mês é um sonho para qualquer financista que empresta dinheiro. Em 2018, quando o Credcesta começou a cobrar esse tipo de juro de agiota, a inflação anual no Brasil foi de 3,75%. Isso mesmo: a inflação em 12 meses era menor do que Guga Lima cobrava por mês pelos empréstimos consignados do Credcesta.
Uma dúvida sempre rondou os baianos que conhecem essa operação. Por que Rui Costa e Jaques Wagner não criaram essas condições antes de privatizar o Credcesta?
É que o leilão de privatização da Ebal e do Credcesta poderia ter atraído uma enxurrada de interessados se tivesse sido anunciado já com os benefícios oferecidos só depois de mão beijada para Guga Lima. O preço final de venda seria maior. O Estado da Bahia lucraria mais. Por que Rui Costa e Jaques Wagner não quiseram oferecer esses benefícios a qualquer interessado? Isso não se sabe, nem a dupla de políticos da Bahia nunca se interessou em explicar.
Jaques Wagner e Rui Costa liquidaram o ativo estatal por R$ 15 milhões. Uma bagatela. E 16 dias depois, vieram os decretos feitos à perfeição para ajudar a iniciativa privada.
Mas teve mais. Outra decisão controversa que ajudou o Credcesta a seguir prosperando.
Em 13 de janeiro de 2022 –quando o Credcesta já era uma das joias do Banco Master–, Rui Costa tomou outra decisão difícil de entender. O então governador da Bahia proibiu os funcionários públicos do Estado de transferirem suas dívidas com o Credcesta para outras instituições bancárias que ofereciam juros menores.
Em suma, o governo do PT na Bahia disse aos funcionários públicos do Estado: “Fiquem para sempre pagando juros altíssimos para Guga Lima e Daniel Vorcaro”.
Essa história tem inúmeros detalhes e imbricações entre o PT da Bahia e o comando do Master. Há ainda pontos obscuros. Informações escondidas e difíceis de serem encontradas. O Poder360 passou 6 meses atrás dos decretos idealizados por Rui Costa e Jaques Wagner. As íntegras desses documentos escondidos podem agora ser lidas aqui ao longo desta reportagem, bem como o enredo completo cuja síntese é uma só: sem o PT da Bahia, sem Rui Costa e sem Jaques Wagner não teria prosperado o esquema inicial que resultou na fraude do Banco Master na forma que o Brasil conheceu nos últimos meses.
ACM criou um sistema em que os 280 mil funcionários públicos da Bahia podiam comprar alimentos numa cadeia de supermercados montada pelo governo estadual. Posteriormente, o modelo evoluiu para a utilização de um cartão (o Credcesta, nascido no Cesta do Povo) em que o valor gasto só caía no fim do mês, descontado dos salários. Isso mesmo: a Bahia tinha uma rede estatal de supermercados, a Ebal (Empresa Baiana de Alimentos).
Ao longo dos anos, a Ebal se tornou uma catástrofe financeira e uma usina de problemas. O PT comanda a Bahia desde 2007. O partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um fervoroso admirador de operações estatais, mas logo percebeu que esse negócio não poderia ser recuperado nem nunca daria certo.
Houve duas tentativas frustradas de venda da Ebal pelo PT no governo da Bahia. Ninguém se interessou em assumir o negócio. Na 3ª tentativa, em 2018, o ativo foi privatizado pelo então governador, Rui Costa (PT). O Estado da Bahia recebeu um valor simbólico: R$ 15 milhões.
A operação foi esquisita. Participaram um empresário espanhol e outro da Bahia, mas o comprador real e definitivo dessa geringonça deficitária foi Guga Lima. Os outros 2 nunca mais apareceram.
Até participar do processo de privatização da Ebal e do Credcesta, Augusto Ferreira Lima era conhecido por negócios de médio impacto. Ele havia tido, por exemplo, uma operação de venda de abadás em Salvador. Atuava um pouco no mercado imobiliário. Nada que chamasse muito a atenção.
Tudo mudou com o Credcesta. Nas mãos de Guga Lima, o negócio micado virou uma potência da noite para o dia. Ele não fez mágica nem é um mestre em modelos de administração. Só fez política alicerçada em sólidas relações de amizade com os poderosos da política da Bahia.
Antes de comprar a Ebal e o Credcesta, Guga Lima articulou tudo com os 2 políticos mais relevantes do PT da Bahia –Rui Costa, já mencionado, e o hoje senador Jaques Wagner.
Nas conversas, Guga deixava bem claro: a Ebal e seus supermercados não valiam nada. O Credcesta, sim, tinha um grande potencial. Não para comprar comida fiado. Mas para virar um cartão para empréstimos consignados –o que não era a finalidade inicial, quando o negócio havia sido concebido décadas antes.
Os petistas baianos entenderam direitinho. Foram generosos com Guga Lima. Apenas 16 dias depois de o Credcesta ter sido privatizado, o novo dono recebeu um presente: foram baixados 2 decretos estaduais que mudaram o jogo. ...
Os decretos foram articulados em 2018, com Jaques Wagner ainda atuando como secretário estadual de Desenvolvimento Econômico da Bahia. Coube ao então governador, Rui Costa, assinar essas medidas. Os documentos eram muito falados, mas as íntegras andavam sumidas. O Poder360 achou tudo e publica os links ao longo desta reportagem....
Por obra da generosidade de Jaques Wagner e Rui Costa, o Credcesta deixou de ser um cartão mixuruca que só comprava arroz e feijão para se transformar numa potência financeira. Privatizado, o produto passou a ter estas características extras:
saque em dinheiro – 16 dias depois de privatizado, passou a ser possível para os 280 mil funcionários públicos da Bahia tomar empréstimo e sacar dinheiro com o Credcesta. O valor sacado virava empréstimo consignado a juros próximos de 5% ao mês. Bastava ter o cartão para receber o dinheiro na conta na hora que quisesse;
aumento do limite para comprometer o salário – para azeitar o negócio, foi necessário permitir que os funcionários públicos baianos pudessem ampliar o limite a ser comprometido do salário com empréstimos consignados. Assim foi feito. No decreto de Rui Costa ficou estabelecido que cada funcionário público baiano poderia comprometer 30% do salário com novos empréstimos consignados, mas com uma condição importante: desde que fossem via Credcesta.
Nem tráfico de drogas dá tanto dinheiro. E no Credcesta o risco é zero.
Os funcionários públicos da Bahia não tinham como dar calote. As prestações do empréstimo eram descontadas automaticamente do salário, com taxa de juros estratosférica, na casa de 5% ao mês. Como funcionário público nunca é demitido, o lucro é eterno para quem deu o dinheiro emprestado.
A taxa de juros de 5% ao mês é um sonho para qualquer financista que empresta dinheiro. Em 2018, quando o Credcesta começou a cobrar esse tipo de juro de agiota, a inflação anual no Brasil foi de 3,75%. Isso mesmo: a inflação em 12 meses era menor do que Guga Lima cobrava por mês pelos empréstimos consignados do Credcesta.
Uma dúvida sempre rondou os baianos que conhecem essa operação. Por que Rui Costa e Jaques Wagner não criaram essas condições antes de privatizar o Credcesta?
É que o leilão de privatização da Ebal e do Credcesta poderia ter atraído uma enxurrada de interessados se tivesse sido anunciado já com os benefícios oferecidos só depois de mão beijada para Guga Lima. O preço final de venda seria maior. O Estado da Bahia lucraria mais. Por que Rui Costa e Jaques Wagner não quiseram oferecer esses benefícios a qualquer interessado? Isso não se sabe, nem a dupla de políticos da Bahia nunca se interessou em explicar.
Jaques Wagner e Rui Costa liquidaram o ativo estatal por R$ 15 milhões. Uma bagatela. E 16 dias depois, vieram os decretos feitos à perfeição para ajudar a iniciativa privada.
Mas teve mais. Outra decisão controversa que ajudou o Credcesta a seguir prosperando.
Em 13 de janeiro de 2022 –quando o Credcesta já era uma das joias do Banco Master–, Rui Costa tomou outra decisão difícil de entender. O então governador da Bahia proibiu os funcionários públicos do Estado de transferirem suas dívidas com o Credcesta para outras instituições bancárias que ofereciam juros menores.
Em suma, o governo do PT na Bahia disse aos funcionários públicos do Estado: “Fiquem para sempre pagando juros altíssimos para Guga Lima e Daniel Vorcaro”.
Essa história tem inúmeros detalhes e imbricações entre o PT da Bahia e o comando do Master. Há ainda pontos obscuros. Informações escondidas e difíceis de serem encontradas. O Poder360 passou 6 meses atrás dos decretos idealizados por Rui Costa e Jaques Wagner. As íntegras desses documentos escondidos podem agora ser lidas aqui ao longo desta reportagem, bem como o enredo completo cuja síntese é uma só: sem o PT da Bahia, sem Rui Costa e sem Jaques Wagner não teria prosperado o esquema inicial que resultou na fraude do Banco Master na forma que o Brasil conheceu nos últimos meses.
GÊNESE: ALIMENTOS Toda essa história começou a se desenhar em 2014, no fim da gestão do então governador, Jaques Wagner, um petista histórico e amigo muito próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. À época, o Palácio de Ondina tentava se livrar da Empresa Baiana de Alimentos, a estatal responsável por administrar a rede de supermercados Cesta do Povo. A Ebal acumulava prejuízos anuais na casa dos R$ 80 milhões.
Wagner sancionou, no fim daquele ano, um projeto (íntegra – 712 kB) aprovado numa articulação dele com a Assembleia Legislativa da Bahia para autorizar a privatização da Ebal. Técnicos começaram a se mexer nos meses seguintes para avaliar qual seria o conjunto ofertado e para organizar o leilão.
O governo baiano tentou vender a Ebal pela 1ª vez em 27 de janeiro de 2016, por um lance mínimo de R$ 81 milhões. Ninguém quis comprar. Deu vazio, como se diz no mercado financeiro.
Houve uma 2ª chamada pelo mesmo valor em março de 2018. Novamente fracassou. Na época dos certames, Rui Costa já havia assumido a administração baiana, depois de 2 mandatos consecutivos de Wagner (2007-2014).
Para tornar o negócio atraente aos investidores privados, a gestão de Rui Costa incluiu de última hora um ativo no edital de desestatização e diminuiu generosamente o lance mínimo para o arremate. A administração completa do Programa Credicesta (que mais tarde mudou de nome e virou Credcesta) passou a claramente fazer parte do processo de privatização: quem ficasse com a Ebal levava o cadastro dos funcionários públicos baianos que compravam alimento fiado nos, à época, 49 supermercados da Ebal.
À primeira vista, isso não era nada. Não valia nada ter o direito de operar o Credcesta. Até porque tratava-se de um sistema de vendas de alimentos a crédito voltado só a funcionários públicos do Estado da Bahia. Leia a íntegra (167 – kB) do comunicado divulgado sobre a venda da Ebal. Foi informado que o leilão tinha sido vencido por duas pessoas que estavam associadas: o “investidor espanhol Ignacio Morales” e “um dos mais experientes empresários do varejo baiano, Joel Feldman”.
Guga Lima trabalhou nos bastidores e logo depois assumiu o negócio, como já havia combinado com o PT baiano. Morales sumiu. Nunca ficou muito bem explicado que papel fez esse empresário, pois ficou poucas semanas formalmente no comando da operação. Feldman assumiu as poucas lojas do Cesta do Povo que tinham viabilidade financeira. O restante fechou.
É um ponto obscuro na história a forma pela qual Guga Lima conseguiu se tornar o único dono do Credcesta. Não se sabe como ele conseguiu financiamento para ressarcir o espanhol e o outro baiano que comprou inicialmente a Ebal.
O desenho montado para o Credcesta e decisões do governo tomadas depois da privatização deram a Guga Lima vantagens inauditas no mercado de crédito:
O desenho montado para o Credcesta e decisões do governo tomadas depois da privatização deram a Guga Lima vantagens inauditas no mercado de crédito:
exclusividade prolongada – concessão exclusiva de 15 anos (até 2033) para operar o cartão consignado do funcionalismo estadual baiano;
margem exclusiva – permissão exclusiva para que os funcionários públicos comprometessem até 30% do salário líquido com o cartão (além do que já gastavam com outros débitos automáticos no salário);
saque em dinheiro – uma vez privatizado o Credcesta, foi liberada a possibilidade de ofertar uma linha de crédito consignado para saques em dinheiro, não só mais para compra de alimentos via cartão;
risco quase zero – o desconto das parcelas e faturas era feito diretamente na folha de pagamento gerida pelo Estado, blindando a operação contra a inadimplência;
negócio livre de dívidas – os débitos acumulados pela Ebal ficaram sob responsabilidade do Estado. Ou seja, Guga Lima ficou sem passivo algum para honrar. O mico morreu na mão do governo da Bahia, ou seja, na conta de todos os pagadores de impostos daquele Estado.
Com esse pacote de benefícios e na 3ª tentativa, o governo baiano teve sucesso em privatizar a Ebal. Em 12 de abril de 2018, a Comissão Especial da Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia, que era chefiada por Jaques Wagner durante a negociação, divulgou o resultado do último leilão .
A NGV Empreendimentos e Participações havia arrematado no dia anterior, 11 de abril de 2018, o controle acionário da empresa, os 49 supermercados Cesta do Povo e o Credcesta por R$ 15 milhões. O valor foi R$ 66 milhões inferior ao preço mínimo estabelecido no leilão anterior –em 2016, foram pedidos R$ 81 milhões. Leia a íntegra do comunicado (PDF – 147 kB) sobre a venda.
Cerca de 2 meses depois de adquirir a Ebal e o Credcesta, a NGV repassou o Credcesta para a PKL One Participações S.A –que tem seus sócios em sigilo na Junta Comercial de São Paulo, onde está registrada. É comandada por pessoas que atuam em empresas ligadas a Guga Lima. A PKL é parte de um emaranhado de fundos de investimentos conectados ou administrados pela Reag Investimentos, uma gestora investigada na operação Carbono Oculto, que mira o crime organizado. Sobre essa teia de fundos, o Poder360 publicou 3 reportagens reveladoras, assinadas por Marcio Aith: Resolução do CMN de 2018 transformou fraudes em bombas sistêmicas (em 9.fev.2026), 4 auditorias deram OK para os balanços do Master e da Reag (25.jan.2026) e BC desconhece fábrica de créditos falsos no sistema financeiro (23.dez.2025).
Guga Lima foi desde o início o idealizador de como deveria ser vendida a Ebal e o Credcesta. Ele atuou nos bastidores da operação como uma espécie de “articulador fantasma”. Negociava diretamente com Jaques Wagner –como o próprio senador admitiu em uma entrevista em 27 de janeiro de 2026 ao programa Giro Baiana, da BNewsTV.
Wagner e Guga tinham uma boa relação. O ex-governador frequentava com certa regularidade festas promovidas pelo ex-vendedor de abadás. Esteve presente em janeiro de 2024, inclusive, no casamento do empresário com a ex-ministra-chefe da Secretaria de Governo (de 2021 a 2022) Flávia Peres (que ficou conhecida no Distrito Federal como Flávia Arruda por causa do seu ex-marido, o ex-governador José Roberto Arruda, que chegou a ser preso no caso do Mensalão do DEM). O luxuoso evento que celebrou a união de Guga e Flávia reuniu vários políticos na Ilha dos Frades, em Salvador. Wagner e sua mulher, Fátima, estiveram em outubro de 2023 numa ilha de Guga Lima.
A influência de Wagner na venda da Ebal foi política e administrativa, sempre com o apoio de Rui Costa. Foi sob seu comando que a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia fez mudanças para tornar a privatização mais atrativa, com uma série de benefícios ao operador privado. Ele nega ter recebido qualquer vantagem por sua atuação nesse caso.
A PKL One Participações, empresa relacionada a Guga Lima, passou a controlar formalmente a Ebal e o Credcesta em 5 de julho de 2018.
Guga Lima já atuava no setor financeiro baiano por meio da Terra Firme da Bahia, correspondente de instituições financeiras e de associações que prestavam serviços ao funcionalismo. Ele também havia atuado como vendedor de abadás para as festas de Carnaval locais.
Guga e Wagner foram apresentados pelo publicitário Guilherme Sodré Martins. Conhecido como Guiga, ele foi casado anteriormente com Fátima Mendonça, atual mulher de Wagner, e é o pai de Eduardo Sodré Martins. Guiga foi um dos alvos da 9ª fase da Compliance Zero, em junho de 2026. Ele e Wagner são amigos.
COMO FOI A AJUDA PETISTA
COMO FOI A AJUDA PETISTA
Os 2 decretos editados em 27 de abril de 2018 (só 16 dias depois da venda do Credcesta) foram essenciais para que o negócio crescesse e se tornasse uma plataforma de empréstimos hiper-rentável.
Ambos os atos foram assinados por Rui Costa, mas foram também articulados por Wagner. Ampliaram o escopo do cartão. A seguir, uma descrição e as íntegras de cada documento:
decreto nº 18.353 (íntegra – 125 kB) – permitiu ao operador do cartão diversificar suas funcionalidades, inclusive com serviços creditícios e financeiros;
decreto nº 18.353 (íntegra – 125 kB) – permitiu ao operador do cartão diversificar suas funcionalidades, inclusive com serviços creditícios e financeiros;
decreto nº 18.354 (íntegra – 122 kB) – incluiu o detentor dos direitos do Credcesta no sistema de consignações em folha e assegurou uma margem própria de até 30% da remuneração líquida, separada do valor do salário do funcionário público já comprometido com outros empréstimos bancários. Dentro dessa margem extra, operações financeiras poderiam ocupar até metade do limite, o equivalente a 15% da remuneração líquida.
Abriu-se uma avenida para o Credcesta, que era usado só para comprar alimentos fiado, transformar-se em um consignado comum, com liberação de saques em dinheiro para o funcionalismo baiano e atuando em faixa própria. O negócio de Guga Lima tinha exclusividade para dar empréstimo para os trabalhadores do Estado da Bahia.
E havia uma outra grande diferença: um acesso facilitado para oferecer essas operações para os 280 mil funcionários públicos baianos. Ter acesso a quem pode contrair um empréstimo é algo muito relevante no mercado financeiro.
Guga Lima tinha um tesouro em mãos. Para ampliar a operação, precisava de mais dinheiro. O empresário foi ao mercado buscar um sócio para embarcar em sua aventura.
Procurou o BMG, que recusou a proposta no 2º semestre de 2018. Foi então que se aproximou do Banco Máxima (futuro Master), de Daniel Vorcaro. Documento oficial do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) mostra que Guga Lima negociava com a instituição em setembro de 2018 e que indicou o Máxima como comprador de uma carteira de créditos. Leia na íntegra.
Fonte: Poder 360 - Para ler a matéria completa Acesse aqui
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