RIVALIDADE X RACIONALIDADE: Por que torcer contra a Argentina, se é a última sobrevivente do futebol sul-americano na Copa do Mundo de 2026?


Por Taciano Medrado*

Olá, caríssimos, 

Acho que esse editorial dialoga com um sentimento que muitos torcedores experimentaram após as oitavas: a rivalidade permanece, mas o contexto da competição convida a uma reflexão mais ampla sobre o espaço do futebol sul-americano no cenário mundial.

Há momentos em que a paixão precisa dar lugar à razão.

Confesso que, durante o dramático confronto entre Egito e Argentina, vencido pelos argentinos por 3 a 2, eu era mais um entre milhões de brasileiros que torciam pela eliminação dos tradicionais Los Hermanos. Afinal, a rivalidade entre Brasil e Argentina é uma das maiores do esporte mundial e atravessa gerações. Faz parte da nossa cultura futebolística.

Mas, encerrados os jogos das oitavas de final, bastou olhar a tabela da Copa do Mundo para perceber uma realidade que muitos, movidos pela emoção, ainda não haviam enxergado.

Dos oito classificados às quartas de final, seis são europeus: França, Bélgica, Espanha, Suíça, Noruega e Inglaterra. Há ainda o Marrocos, representando a África. E apenas uma seleção permanece defendendo as cores da América do Sul: a Argentina.

Essa constatação muda completamente a perspectiva.

A partir deste momento, a discussão deixa de ser Brasil versus Argentina. Passa a ser América do Sul versus o restante do mundo, sobretudo contra o domínio crescente do futebol europeu.

A rivalidade continua existindo e continuará existindo para sempre. Ninguém está propondo apagar décadas de confrontos históricos, finais memoráveis, provocações e disputas que ajudaram a transformar brasileiros e argentinos nos maiores rivais do futebol mundial.

O que se propõe é algo muito mais simples: reconhecer o contexto.

A Copa do Mundo não é uma Copa América. No torneio continental, é natural que brasileiros torçam contra argentinos e vice-versa. Cada um luta pela hegemonia da América do Sul.

No Mundial, entretanto, o cenário é outro. O que está em jogo é o prestígio das escolas de futebol, dos continentes e da tradição construída ao longo de mais de um século.

E, gostemos ou não, hoje a Argentina carrega sozinha essa responsabilidade.

Se também for eliminada, a América do Sul desaparecerá da competição antes mesmo das semifinais. Será mais um sinal de alerta para um continente que já foi soberano no futebol mundial e que, nos últimos anos, vem perdendo espaço para uma Europa cada vez mais organizada, profissional e dominante.

Não se trata apenas de talento. Talento nunca faltou por aqui.

O problema está na gestão.

Enquanto as federações europeias investem pesado na formação de treinadores, em centros de excelência, ciência do esporte, categorias de base, tecnologia e planejamento de longo prazo, grande parte das entidades sul-americanas ainda desperdiça energia em disputas políticas, calendários desorganizados, administrações amadoras e decisões tomadas sem qualquer visão estratégica.

Os resultados aparecem dentro de campo.

Nesta Copa, Brasil, Uruguai, Colômbia, Equador e demais representantes do continente ficaram pelo caminho. Sobrou apenas a Argentina.

Por isso, talvez seja hora de separar rivalidade de irracionalidade.

Torcer pela Argentina, neste momento, não significa abandonar o orgulho de ser brasileiro. Significa reconhecer que ela é a última representante do futebol sul-americano diante de um cenário amplamente favorável aos europeus.

O futebol sempre foi maior do que as fronteiras.

Pelé encantou argentinos. Maradona foi reverenciado por brasileiros. Messi é admirado no mundo inteiro. O respeito pelos grandes jogadores sempre ultrapassou as cores da camisa.

Da mesma forma, defender que a Argentina avance nesta Copa não é defender um rival histórico. É defender que a América do Sul continue relevante no principal palco do futebol mundial.

Quando o árbitro apitar o início das quartas de final, muitos brasileiros continuarão torcendo contra os argentinos. É um direito de cada torcedor.

Mas vale uma reflexão: se a última seleção sul-americana também cair, quem continuará representando o nosso futebol?

Às vezes, a maior vitória não está em ver o rival perder.

Está em impedir que o continente inteiro desapareça da disputa.

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