LULA – FAÇA O QUE EU DIGO, MAS NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO

“Não participarei de debate, não vou dar colher de chá pra me sacanearem”


A declaração do candidato a reeleição - Lula (PT) de que poderá não participar dos debates do primeiro turno das Eleições 2026 revela uma contradição que dificilmente passa despercebida. O mesmo político que, durante décadas, defendeu o debate democrático como instrumento de confronto de ideias e de fortalecimento da cidadania, agora admite evitar os encontros televisivos para não ser alvo de críticas e ataques dos adversários.

Ao afirmar que não pretende “dar colher de chá para quem quer me sacanear”, Lula parece estabelecer uma lógica preocupante: o debate só vale quando o ambiente lhe é favorável. A justificativa de que não participará se for para ouvir “bobagem” pode até encontrar eco entre seus apoiadores, mas abre um precedente perigoso para qualquer candidato que deseje escapar do escrutínio público.

Debates eleitorais não existem para agradar candidatos. Eles servem para confrontar propostas, testar a capacidade de argumentação, esclarecer dúvidas do eleitorado e permitir que a sociedade compare visões de governo. Quem ocupa a Presidência da República, especialmente buscando a reeleição, tem ainda mais responsabilidade de prestar contas de sua gestão diante dos concorrentes e da população.

Dentro do próprio PT, há divisão. Um grupo defende que Lula evite os debates para reduzir o desgaste provocado por ataques coordenados da oposição. Outro entende que os encontros são uma vitrine indispensável para apresentar resultados e rebater críticas. Essa divergência mostra que a decisão não é apenas estratégica; é também um reconhecimento de que o ambiente eleitoral de 2026 será muito mais competitivo do que o governo gostaria.

O primeiro debate televisivo está previsto para 16 de agosto, justamente a data marcada para o lançamento oficial da candidatura do presidente. Se optar pela ausência, Lula transmitirá uma mensagem difícil de conciliar com o discurso histórico de defesa da democracia participativa.

A política brasileira já sofre com excesso de polarização, desinformação e marketing eleitoral. Esvaziar os debates não ajuda a qualificar o processo democrático. Ao contrário, reforça a ideia de que candidatos podem escolher quando e onde serão questionados.

No fim das contas, a impressão que fica é a de um velho ditado adaptado à política nacional: “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. 

Quem sempre cobrou transparência e disposição para o confronto de ideias não deveria temer exatamente aquilo que ajudou a transformar em símbolo da democracia eleitoral: o debate público.

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