Ao longo de muito tempo a literatura contribuiu para construir uma imagem negativa do Semiárido, dos povos que vivem nessa região. É também através da literatura que, por exemplo, vamos desconstruir essas narrativas e ressignificar tudo o que diz respeito aos modos de vida, à biodiversidade e aos problemas diversos ainda não superados.
Justamente por isso, ocupar um espaço da programação de um Festival Literário para discutir temas relacionados à Educação Contextualizada é simbolicamente importante e demarca um lugar fundamental para difundir o conceito, socializar os avanços e pautar os desafios atuais.
Nesse sentido, o tema: “Educação Contextualizada com o Semiárido: uma pedagogia da vida” foi discutido durante uma das mesas realizadas na programação do 2º Festival Juá Literária, em Juazeiro-BA. O momento aconteceu no fim da tarde da última quinta-feira (23), no espaço “Tenda das Palavras” do Centro de Cultura João Gilberto e reuniu um público diverso, com a maioria de educadores/as.
A mesa foi mediada por Ana Paula Granja, atual diretora de Educação do Campo e Educação de Jovens e Adultos (EJA), da Secretaria Municipal de Educação de Juazeiro. Participaram da composição dessa mesa: Edmerson Reis, integrante da Rede de Educação da Semiárido Brasileiro (RESAB) e professor do Departamento de Ciências Humanas da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus III – Juazeiro; Edinalva dos Santos, gestora da Escola de Formação de Professores de Juazeiro; Jousivane dos Santos Silva, agente comunitária de saúde, liderança na Comunidade Tradicional de Fundo de Pasto de Lagoa do Meio e integrante do Comitê de Associações Comunitárias Agropecuárias de Massaroca (CAAM); e José Moacir dos Santos, presidente do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa). Confira reportagem na integra AQUI Irpaa.
Ao longo das intervenções das pessoas presentes na mesa, o público teve a oportunidade de conhecer detalhes da trajetória da Educação Contextualizada, exemplos de sucesso e os desafios atuais. Um dos destaques apontados foi a experiência positiva da Escola Rural de Massaroca (ERUM), localizada no distrito de mesmo nome, em Juazeiro.
“Para mim um dos grandes avanços, grande significado da ERUM, ela com 31 anos, a gente nunca mais testemunhou jovem de Massaroca indo para São Paulo em busca de um sonho que não era dele, era um sonho do patrão. Isso para mim é o maior ganho, porque é uma educação que fez sentido, que as pessoas entenderam que é possível viver no Semiárido, é possível viver com o que se tem, agora com conhecimento”, enfatizou Jousivane Silva.
Durante a explanação, o professor Edmerson Reis também destacou o quanto a ERUM é referência e defendeu a Educação Contextualizada como um “Projeto que defende a vida” e que se trata de uma “educação comprometida com a transformação social”. O pesquisador complementou ainda destacando a necessidade urgente dos sistemas de ensino modificarem a forma de fazer educação, inclusive para potencializar as práticas de ensino com as pessoas que chegam com formação e o entendimento da importância da contextualização do ensino:
“Como esses sistemas (redes de ensino) olham para esses sujeitos que chegam e diz ‘a gente vai mudar os ritmos da nossa educação?’. O desafio é pensar para além da forma igual como todos pensam a educação. Pensar igual todos já pensam (…) nós queremos aquilo que nos diferencia no modelo, na forma de pensar educação”.
Nesse sentido do pensar diferente, de mudar a forma de educar, o presidente do Irpaa, José Moacir dos Santos, explicou a trajetória da construção do conceito da Educação Contextualizada, enfatizando que, em nossa realidade, ela precisa ser “para Convivência com o Semiárido”. De acordo com Moacir, esse processo se deu ao longo do tempo a partir das experiências da população, com contribuições da educação popular e não escolar. O Irpaa, por exemplo, desenvolveu todo um trabalho para “traduzir dados de pesquisas para a linguagem acessível e popular, a partir da adaptação de materiais”; o que foi demonstrado por Moacir, com a utilização de alguns panos pintados com ilustrações de fácil entendimento e um pluviômetro artesanal.
As práticas de contextualização do ensino com o chamado “trabalho de base”, atuando na formação das pessoas, ações de incidência política, lutas por políticas públicas, somadas à intensa participação da sociedade civil organizada, dos movimentos sociais populares resultaram na transformação social do Semiárido.
Texto e foto: IRPAA
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