Por Jabesa, 72 *
Há encontros que duram poucos minutos, mas permanecem vivos por muitos anos dentro da gente.
Na saída de uma farmácia, enquanto a cidade seguia apressada no seu ritmo comum, um senhor aproximou-se de uma senhora e, com a naturalidade de quem ainda acredita na leveza dos encontros, perguntou:
— E a menina aí, está esperando o quê?
Ela sorriu:
— Um Uber.
— Vai para onde?
Ela apontou uma direção. Ele, com um pequeno gesto, indicou o lado oposto.
— Se fosse para lá, seguiríamos juntos.
Chegou um pouco mais perto, curioso, interessado, como quem tenta puxar da memória um rosto antigo.
— Você tem um rosto conhecido. Como é seu nome? Trabalhava onde?
Ela respondeu, contou onde havia trabalhado e devolveu a pergunta.
O senhor apenas apontou para um adesivo amarelo preso ao peito. Nele, seu nome e o de um hospital.
— Estava no hospital?
— Fazendo exame do coração...
Tentava lembrar o nome do procedimento.
— Eletro? — ajudou ela.
— Não... Eco...
— Ecocardiograma. Foi ver como anda o coração...
Então ele sorriu. Daquele sorriso raro que primeiro aparece nos olhos e depois encontra a boca. Apontou discretamente para ela e respondeu:
— Foi... E é por isso que ele fez “tuque, tuque”.
Ela sorriu também.
Pouco depois, ele entrou no seu BYD e partiu devagar.
No balcão da farmácia, antes daquela pequena cena acontecer, eu havia ouvido sua idade: 80 anos. Vestia jeans, camiseta cinza, caminhava com certa instabilidade e comentava algumas falhas de memória típicas do tempo.
Ela tinha 72. Usava um conjunto rosado moderno, cabelos brancos em corte contemporâneo e carregava aquele jeito firme de quem preserva a própria autonomia.
Talvez seja essa a nova velhice.
Confesso que, num primeiro momento, meu olhar percorreu os caminhos da formação profissional: observei a marcha cautelosa do senhor, a cognição, a comunicação; nela, a desenvoltura, a independência, a segurança.
Mas bastaram poucos minutos de conversa para que tudo mudasse de lugar.
De repente, já não importavam apenas as perdas funcionais.
Importava perceber que, apesar das limitações impostas pelo tempo, permanecia intacta a capacidade humana de se encantar.
Havia ali um discreto jogo de sedução entre duas pessoas de 80 e 72 anos. Um flerte leve, respeitoso, bem-humorado. Algo bonito justamente porque não negava a idade — mas também não se deixava aprisionar por ela.
Quantas vezes imaginamos que a fragilidade física anuncia o fim dos afetos?
Esquecemos que o corpo pode envelhecer antes da capacidade de admirar alguém, de sorrir, de desejar companhia ou de sentir o coração acelerar diante de um encontro inesperado.
Nem tudo precisa ser explicado.
Há momentos em que sentir basta.
Ao longo da vida, as frustrações vão construindo couraças. A razão passa a nos proteger de novas dores, mas também pode nos afastar da delicadeza dos pequenos encontros que ainda insistem em florescer.
Talvez envelhecer com saúde seja isso: conservar a coragem de permitir que o coração continue falando.
Emoções não são fraqueza.
São sinais de vitalidade.
Enquanto o coração ainda fizer “tuque, tuque”, haverá espaço para novos encontros, novas histórias e, quem sabe, novos amores.
Porque a fragilidade que acompanha a idade não impede o nascimento de um sentimento amoroso.
Talvez, ao contrário, lhe dê ainda mais verdade.
Dar vida aos anos é permitir que o coração continue fazendo “tuque, tuque”, em qualquer idade.
“Cantada de Idoso” ou simplesmente: “Tuque, Tuque”.
(*) Colaboradora do TMNews do Vale
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