Idosos e golpes digitais: por que eles são os principais alvos e o que podemos fazer


Por  
Bruno Cesar Oliveira*

Os dados recentes sobre fraudes digitais revelam um cenário preocupante e, ao mesmo tempo, revelador: há um grupo específico sendo cada vez mais explorado por criminosos, os idosos. Uma matéria publicada pelo TNH1 aponta que 82% das vítimas de golpes possuem mais de 60 anos. Mas esse fenômeno vai muito além de um recorte regional: trata-se de uma tendência nacional e global.

O avanço dos golpes no Brasil

O Brasil vive uma verdadeira epidemia de fraudes digitais. De acordo com levantamento do DataSenado, cerca de 24% dos brasileiros com mais de 16 anos já foram vítimas de golpes virtuais, o que representa mais de 40 milhões de pessoas afetadas.

Quando olhamos especificamente para o público idoso, o cenário se torna ainda mais crítico. Em 2024, foram registrados mais de 72 mil casos de fraudes financeiras contra pessoas acima de 60 anos, segundo dados do Disque 100. Além disso, estudos indicam que 40% dos idosos já sofreram mais de um golpe e 80% tiveram prejuízo financeiro direto.

Outro dado relevante vem da Serasa Experian: embora adultos de meia idade ainda concentrem grande parte das tentativas de fraude, o maior crescimento das investidas ocorre justamente entre idosos, com aumento de quase 12% em 2024.

Ou seja, não se trata apenas de volume, mas de tendência de crescimento.

Um fenômeno global

Embora o Brasil tenha números expressivos, o problema não é exclusivo. O aumento da digitalização no mundo, acelerado pela pandemia, ampliou a exposição dos idosos ao ambiente online. Hoje, muitos utilizam a internet diariamente, no Brasil, por exemplo, 94% das pessoas acima de 75 anos acessam a rede todos os dias .

Esse aumento de conectividade, no entanto, não foi acompanhado na mesma velocidade por educação digital e mecanismos de proteção. Como resultado, criminosos passaram a explorar vulnerabilidades específicas desse público, principalmente por meio de engenharia social, técnica baseada na manipulação psicológica para induzir a vítima ao erro .

Com o avanço da tecnologia, os golpes também evoluíram. Hoje já existem fraudes com uso de inteligência artificial e deepfakes, capazes de simular vozes e rostos de familiares para enganar vítimas, tornando a detecção ainda mais difícil.

Por que os idosos são mais vulneráveis

A vulnerabilidade dos idosos não está relacionada à capacidade cognitiva, mas ao contexto. Existem alguns fatores que explicam por que esse grupo é mais visado:

Menor familiaridade com tecnologias e mecanismos de segurança digital

Maior confiança em interações humanas, mesmo em ambientes virtuais

Uso intenso de canais como telefone e aplicativos de mensagem

Dificuldade em identificar sinais de fraude sofisticada

Além disso, muitos criminosos exploram situações emocionais, senso de urgência ou autoridade, elementos que aumentam a chance de sucesso do golpe.

Outro ponto crítico é o uso indevido de dados pessoais. Casos de abertura de contas fraudulentas e contratação de empréstimos em nome de idosos são cada vez mais comuns, especialmente em um país que já enfrentou grandes vazamentos de dados.

O papel da família e da sociedade

Diante desse cenário, a proteção dos idosos não pode ser tratada como uma responsabilidade individual. Trata-se de um esforço coletivo.

A educação digital é, sem dúvida, o principal caminho. Ensinar práticas básicas, como não compartilhar senhas, evitar clicar em links suspeitos e desconfiar de contatos inesperados, já reduz significativamente os riscos.

Mas isso não é suficiente.

É fundamental que familiares e pessoas próximas atuem como uma rede de proteção ativa. Isso inclui:

Auxiliar na configuração de dispositivos e aplicativos

Ativar camadas adicionais de segurança, como autenticação em dois fatores

Orientar sobre golpes comuns e novas abordagens criminosas
Estimular o hábito de sempre confirmar informações antes de tomar decisões

Como apontam especialistas e órgãos públicos, o combate a fraudes digitais exige atuação integrada entre tecnologia, regulação e conscientização.

Conscientização é a principal defesa

Apesar do avanço tecnológico dos golpes, a principal ferramenta de defesa continua sendo a informação. A maioria das fraudes ainda depende da ação da própria vítima, seja clicando, informando dados ou autorizando transações.

Por isso, conscientizar é proteger.

Se você tem um familiar, amigo ou conhecido que se enquadra nesse grupo mais vulnerável, dedicar tempo para orientar pode fazer toda a diferença. Em muitos casos, uma simples conversa é capaz de evitar prejuízos financeiros e danos emocionais significativos.

Um dever coletivo

O combate às fraudes digitais, especialmente contra idosos, não é apenas um desafio tecnológico ou institucional, é uma responsabilidade social.

Em um mundo cada vez mais conectado, proteger quem está mais exposto é uma obrigação de todos nós.

(*)  Gestor de riscos, compliance e prevenção a fraudes em instituições financeiras.

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