Desenrola 2.0: alívio ou repetição do erro?



Imagem criada  com auxílio do gerador de imagens com IA.

Por Valter Bernat*

O governo relança o programa de renegociação de dívidas com pompa de solução social, agora reforçado pelo anúncio mais recente do presidente, que promete ampliar o alcance e facilitar ainda mais o acesso usando até o FGTS. Mas segue evitando o ponto central: estamos tratando sintomas e ignorando as causas. Problema médico que extrapola para a economia.

Diz o ditado que errar é humano, mas persistir no erro é política pública. O Desenrola 2.0 chega com ares de salvador da pátria, embalado por um discurso, eleitoreiro, renovado após a nova divulgação oficial. Ainda assim, para quem olha de perto — e principalmente para quem já sentiu o morde e assopra da primeira versão —, o programa soa mais como uma estratégia de refinanciamento da nossa própria miséria do que como uma solução real.

A promessa agora é de ampliação, inclusão e uma nova oportunidade para milhões de endividados. Mas a pergunta incômoda permanece: estamos diante de uma segunda chance — ou de mais uma volta no mesmo ciclo?

Há algo de contraditório logo na largada. Se o objetivo é promover responsabilidade financeira, como justificar que alguém potencialmente beneficiado pelo Desenrola 1.0 possa, novamente, estar apto a participar? O novo anúncio fala em ampliar o acesso, mas ignora o risco evidente de reincidência.

O primeiro erro, e talvez o mais gritante, continua sendo a falta de critério. Colocar no mesmo saco a dívida de quem perdeu o emprego e a de quem estourou o cartão de crédito em supérfluos ou, pior, se afundou em apostas online, é um desrespeito.

Dívidas em Bets e de consumo irresponsável não são fatalidades — são escolhas. Ao não fazer essa distinção, o programa cria um incentivo perverso: para que ter responsabilidade financeira se, no futuro, o governo virá novamente limpar seu nome?

Isso não é política pública — é estímulo à reincidência e incentivo ao bom pagador que deixe de sê-lo.

Uma iniciativa séria deveria estabelecer critérios claros de elegibilidade, incluindo a origem da dívida e o histórico recente do devedor. Sem isso, a mensagem transmitida é perigosa: endivide-se, renegocie e repita o erro.

O anúncio recente reforça a ideia de facilitar o acesso ao crédito e reaquecer a economia, mas evita enfrentar um tema essencial: por que tantos brasileiros continuam se endividando? O crédito segue caro, a educação financeira é insuficiente e o avanço das apostas online amplia o risco de colapso financeiro pessoal e o crédito rotativo no cartão de crédito continua aumentando.

Mais grave ainda é a sinalização implícita: haverá sempre uma nova rodada de renegociação. Isso distorce o comportamento econômico e mina qualquer tentativa de disciplina financeira no longo prazo. Depois virá o Desenrola 3.0?

No fim do dia, quem realmente abre o champanhe não é o João ou a Maria que limparam o nome. São os bancos que tiveram o ressarcimento com o dinheiro do contribuinte.

O Desenrola é, na prática, um grande mecanismo de recuperação de crédito para instituições financeiras. O governo facilita a entrada de recursos que já eram considerados perdidos, reduz o risco de inadimplência e mantém o sistema girando.

O banco recebe, o governo capitaliza politicamente — e o cidadão segue vulnerável, agora com o nome limpo e pronto para se endividar novamente.

Enquanto o brasileiro médio comemora o retorno ao crédito, o ciclo recomeça. E o que deveria ser solução vira apenas intervalo entre uma dívida e outra.

(*) Advogado, analista de T.I, Editor chefe do site O Boletim e parceiro do TMNews do Vale 

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