A questão não é se a carne da paca cozida por Janja era de criadouro autorizado, mas sim o estímulo que o casal presidencial dá ao incentivar o consumo de um animal silvestre
Por Taciano Medrado*
Em meio à repercussão do vídeo em que a primeira-dama Janja aparece preparando carne de paca, o debate público acabou sendo conduzido por uma pergunta secundária: a origem do animal era legal ou não? Se veio de criadouro autorizado, se respeitou a legislação ambiental, se houve ou não irregularidade formal.
Mas essa não é, e nunca foi, a questão central.
O verdadeiro ponto de reflexão está no simbolismo do gesto. Quando figuras públicas, sobretudo ocupantes do mais alto cargo da República, expõem e enaltecem o consumo de carne de um animal silvestre, ainda que dentro da legalidade, acabam por enviar uma mensagem ambígua à sociedade.
E mensagem, nesse caso, tem peso.
O Brasil convive há décadas com a prática ilegal da caça e do consumo de animais silvestres. A paca, embora possa ser criada em cativeiro sob autorização, é amplamente associada à caça predatória em diversas regiões do país. Ao transformar esse consumo em algo “celebrado”, ainda mais em um vídeo descontraído, com elogios efusivos, o casal presidencial, consciente ou não, contribui para normalizar um hábito que, fora dos ambientes regulamentados, alimenta um mercado ilegal e ambientalmente nocivo.
Não se trata de demonizar o prato, nem de ignorar a cultura alimentar de determinadas regiões. Trata-se de reconhecer que liderança exige responsabilidade ampliada. O que pode ser legal nem sempre é conveniente. E o que é conveniente para um cidadão comum pode não ser adequado para quem ocupa uma posição de influência nacional.
A comunicação institucional, ou mesmo informal, de um presidente da República não é neutra. Ela educa, orienta, influencia comportamentos. E, nesse caso, a linha entre o permitido e o recomendável foi claramente ultrapassada.
Em tempos em que o próprio governo se coloca como defensor da sustentabilidade, da preservação ambiental e do combate a práticas ilegais contra a fauna, o episódio soa, no mínimo, contraditório. E contradições, quando partem do topo, tendem a ecoar com mais força na base.
No fim das contas, não importa tanto de onde veio a carne.
O que realmente importa é o exemplo que foi servido à mesa, e transmitido ao país.
(*) Professor e redator chefe do TMNews do Vale
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