Com mais de 20 medalhas, mestre queijeira do Vale do São Francisco conquista prêmios em competição internacional com participantes de 18 países.
Quando se fala no Vale do São Francisco, a imagem que costuma surgir primeiro é a do vinho: taças erguidas, parreirais sob o sol e o enoturismo que ajudou a consolidar a região como destino. Mas há outro sabor amadurecendo por ali — e ele também vem conquistando medalhas, mesas e memórias.
Em Petrolina, a produtora Gilvonete Vasconcelos Vidal, conhecida como Dona Gil, mostra que o Vale, além de ser terra de vinho, também pode ser terra de queijo.
Depois de décadas trabalhando no setor funerário e em planos de assistência, ela encontrou na cidade um refúgio para viver perto da família. O que seria apenas um recomeço acabou se transformando em projeto de vida, recomeço e afeto: o Revi.vas.
Há cerca de quatro anos, ao ganhar dez vacas do marido e sem saber ao certo o que fazer com a produção de leite, Dona Gil decidiu aprender a fazer queijo. Buscou cursos, estudou maturação, aproximou-se de referências nacionais e internacionais e mergulhou em técnicas especializadas, sem perder de vista, porém, aquilo que considera essencial: o terroir* do Vale do São Francisco.
“Eu não sabia nada de cozinha, mas o leite chegava todo dia e eu precisei aprender. Fui buscar os melhores mestres do Brasil e da França para entender que o segredo não estava apenas na técnica, mas no nosso terroir”, afirma Gilvonete.
A inspiração veio da infância: das lembranças da avó queijeira, das férias na roça, das mãos pequenas aprendendo a prensar queijo e do avô batendo manteiga de madrugada. Na marca Revi.vas, ela reuniu o desejo de reviver e os nomes herdados da família. Nos queijos, transformou a própria trajetória em matéria-prima.
Queijos que contam histórias
Não por acaso, seus produtos carregam nomes que contam histórias. O queijo Vale homenageia a terra que a acolheu, o Vale do São Francisco, e se tornou o carro-chefe da produção. O Mulungu remete às origens e à fazenda dos avós. Já o Milu resgata a memória da avó paterna em um queijo manteiga de sabor afetivo.
O reconhecimento veio em seu primeiro concurso, realizado no Nordeste. Dona Gil conquistou um Super Ouro com o queijo Vale Defumado e, desde então, acumulou mais de 20 medalhas em premiações regionais, nacionais e internacionais.
Na 4ª edição do Mundial do Queijo, realizada entre 16 e 19 de abril, em São Paulo, voltou a ser premiada com diferentes produtos da casa, em uma competição que reuniu mais de 2.700 queijos de 18 países.
Dessa vez, levou ouro com os queijos Vale Defumado e Mulungu, uma massa inspirada nas raízes sertanejas da família; prata com o queijo Milu, um queijo manteiga no estilo requeijão de corte que homenageia sua avó paterna; e bronze com o iogurte natural e o queijo Boursin, queijo lácteo de consistência macia, com ervas e azeite.
O diferencial da produção está no controle rigoroso da matéria-prima e no respeito ao tempo de cada processo. Gilvonete explica que são necessários 10 litros de leite para produzir apenas 1 kg de queijo artesanal, sem conservantes ou aditivos. O sabor, diz ela, é resultado da microbiota local e do bem-estar das vacas.
Mas, para além da técnica, Dona Gil acredita que o segredo está no cuidado e no leite de boa origem, na atenção diária ao processo de cura, na virada manual de cada peça e na vigilância constante sobre um alimento vivo. “No fim, o ingrediente de tudo isso é amor e dedicação”, resume.
A Rota do Queijo
A história da Revi.vas também ajuda a abrir um novo caminho: o do queijo como experiência turística e gastronômica no Vale do São Francisco — a Rota do Queijo. Com visitação, degustação sensorial e produção artesanal, os queijos de Dona Gil convidam o público a descobrir o Vale para além da taça.
No local, visitantes podem acompanhar etapas do processo de fabricação, da chegada do leite à câmara de maturação, além de participar de análises sensoriais guiadas pela própria mestre queijeira.
A proposta é mostrar que Petrolina tem potencial para ser reconhecida mundialmente não apenas pelo vinho, mas também pelos queijos.
* Terroir é um termo de origem francesa que, no universo dos queijos, designa a combinação única entre solo, clima, alimentação do gado e microrganismos nativos de uma região. É essa composição que dá identidade ao produto e faz com que o sabor de um queijo artesanal seja impossível de reproduzir exatamente em outro lugar.
Texto atualizado ás 15:11h para alteração pela autora
Fonte: Ascom
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