Imagem criada com auxílio do gerador de imagens com IA.
Por Valter Bernat*
A imagem clássica do criminoso encastelado no morro ou escondido atrás das grades de uma penitenciária de segurança máxima tornou-se um anacronismo perigoso. Hoje, o crime organizado no Brasil — capitaneado pelas duas maiores holdings do tráfico, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) — não apenas desafia o Estado; ele o habita.
Há uma frase antiga no direito penal que diz: “o crime organizado não busca apenas dinheiro; busca poder”. Durante muito tempo, essa ideia parecia exagero retórico no Brasil. As grandes facções eram vistas apenas como organizações violentas que dominavam presídios, traficavam drogas e disputavam territórios nas periferias urbanas. Hoje, essa visão se revela perigosamente ingênua.
O crime organizado moderno funciona como uma empresa multinacional clandestina. Possui cadeia logística, controle financeiro sofisticado, divisão de tarefas, braços internacionais e, sobretudo, estratégia de longo prazo. E nenhuma organização desse porte ignora o centro real do poder: o Estado.
A pergunta que inquieta juristas, investigadores e a própria sociedade é simples e assustadora: até onde as facções já conseguiram penetrar nas estruturas da República?
No início, o objetivo era sobreviver e lucrar no submundo. Mas o crescimento econômico dessas facções abriu um novo horizonte: influenciar decisões políticas e institucionais. Nenhuma organização criminosa começa dominando os palácios estaduais e federais. O caminho costuma começar na base da pirâmide institucional.
O primeiro contato é corrupção e infiltração local em: delegacias, câmaras municipais, polícias regionais e agentes penitenciários. Subornos, ameaças e cooptação, principalmente de menores, passaram a fazer parte da estratégia. O dinheiro proveniente do tráfico, da lavagem financeira e de outros crimes permitiu comprar silêncio, proteção e facilidades administrativas.
Esse tipo de infiltração não é exclusivo do Brasil. Máfias italianas, cartéis mexicanos e organizações russas seguem exatamente a mesma lógica, ou seja, começar pelas engrenagens menores do Estado até alcançar estruturas mais altas. O crime organizado brasileiro, que movimenta bilhões por ano, mostra o poder econômico das facções, atuando no tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, contrabando, mineração ilegal, golpes financeiros, controle de territórios urbanos e extorsões.
Esse capital cria um ambiente fértil para influência política indireta. Campanhas eleitorais, especialmente em níveis locais, podem se tornar vulneráveis a financiamento ilícito. Em comunidades dominadas por facções, candidatos podem receber apoio — explícito ou silencioso — em troca de favores futuros. Não se trata necessariamente de filiação ideológica. Para o crime organizado, ideologia é irrelevante; utilidade é tudo.
Quando se fala em “chegar aos três poderes”, a afirmação não significa necessariamente que facções comandem diretamente deputados, juízes ou ministros, muito embora o noticiário algumas vezes os envolva. O fenômeno costuma ser mais sutil.
O perigo real não é que as facções derrubem o governo com tanques. É que elas o governem por dentro, transformando a democracia em um simulacro onde as instituições trabalham para o crime, e não para o cidadão. A resposta não pode ser apenas a militarização do combate às drogas. Precisa ser uma faxina ética profunda nas instituições, com fiscalização rigorosa, transparência no financiamento de campanhas e um combate implacável à corrupção em todos os níveis.
Enquanto a República não confrontar esse câncer com a seriedade que ele exige, continuaremos a ver as garras do crime organizado se apertando cada vez mais ao redor do coração do Brasil. A simbiose entre o crime organizado e o poder institucional exige mais do que repressão policial; exige uma reforma profunda na transparência de gastos públicos e no financiamento de campanhas. Sem isso, as garras apenas se tornarão mãos que assinam as leis do país.
(*) Advogado, analista de TI e Editor chefe do site O Boletim
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