Silêncios e mentiras


Por: Percival Puggina*

“Quando a verdade é substituída pelo silêncio, o silêncio é a mentira”. (Yevgeny Yevtushenko)

Na atualidade brasileira, talvez não haja assunto mais urgente do que o silêncio. A história ensina serem os tiranos de qualquer pelagem ou época os que mais insistentemente impõem silêncio a quem deles diverge. É alarmante, então, a frequência com que constato o silêncio imposto em nosso país por quem se recusa a ouvir a sociedade sobre o que deixam destruído na esteira de seu andar.

A democracia sem adjetivos, amigos, é ruidosa. O silêncio das ruas é música para o arbítrio e seus embustes. Quando os cidadãos se recolhem aos sofás, os donos do Brasil acendem charutos e a Rede Goebbels de Comunicação, pela natureza orgânica de sua atuação, amplia o próprio poder. Suas principais antagonistas, as redes sociais, dado o caráter plural e disperso, são muito inorgânicas para gerar linhas de pensamento, compreensões coletivas da realidade e formas de atuação.

Isso quanto às ruas e ao povo, mas há, também, o silêncio dos poderosos. Sim, sim, é verdade que os poderosos, aqui e em qualquer lugar do mundo, são autoritários boquirrotos, falastrões e chatos. No entanto, todos adotam a técnica vulgar de silenciar ante perguntas para as quais não têm respostas que sejam dadas sem graves consequências pessoais: “Consultado, não deu retorno,” reporta o repórter. Aliás, todo jornalista, delegado ou membro de CPI sabe que, se a fé move montanhas, há perguntas que ficam sem respostas porque arrasariam arrogantes cordilheiras.

No cotidiano da política nacional, convivemos, também, com o silêncio da representação parlamentar. É um silêncio inconstitucional que, por si só, desqualifica o suposto caráter democrático do Estado. Quando é sob pressão de outro poder que o Congresso cala, a Constituição foi para o brejo, a Liberdade foi igualmente perdida e a nação deve entender o próximo pleito como momento oportuno de recuperá-las pela poderosa mão do voto popular.

Existem manifestações espontâneas de autoridades públicas e atos solenes nos quais eu trocaria por um repousante silêncio toda a oratória mentirosa que os acompanha. Quantas vezes em oportunidades assim, leitor, você viu membros de poder afirmar terem feito exatamente o oposto do que fizeram? Quantas vezes, nas últimas décadas, você quis morar no país que Lula descrevia ou descreve como presidente? Quantas vezes você viu digitais conhecidas exercendo pressão em pratos da balança de Têmis? Não é também verdade que, em todos esses momentos, aplausos reverberaram a mistificação? Silêncio, por favor, cavalheiros e damas, tenham dó!

Mary Ann Evans, inglesa que viveu no século XIX, tornou-se uma grande romancista com pseudônimo masculino. Em bom tempo, ela percebeu que só venceria a barreira do silêncio sobre suas obras adotando nome de homem, tornando-se conhecida como George Elliot. É dela a frase: “Abençoado o homem que tendo nada a dizer se abstém de nos dar uma verborrágica evidência disso”.

(*) Arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores, colunista de dezenas de jornais e sites no país.  Membro da Academia Rio-Grandense de Letras. Escreve, semanalmente, artigos para vários jornais do Rio Grande do Sul, entre eles Zero Hora, além de escrever o seu próprio blog e em outros websites de expressão nacional, a exemplo do Mídia Sem Máscara, Diário do Poder, Tribuna da Internet. Sua coluna é reproduzida por mais de uma centena de jornais.

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