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Por Valter Bernat*
Abolir a jornada 6×1 por decreto, sem uma reforma tributária que alivie quem produz, é assinar a carta de demissão de milhares de trabalhadores cujas funções simplesmente não cabem no papel. O populismo contra o 6×1 ignora a matemática básica: forçar um descanso extra, sem contrapartida de produtividade, apenas empurra o pequeno comerciante para a informalidade ou para a falência.
É fácil pregar o fim da escala 6×1 do alto de gabinete climatizado. Difícil é explicar para o setor de serviços como manter as portas abertas e os preços baixos com uma folha de pagamento inflada artificialmente. Derrubar o 6×1 no grito legislativo é a solução mágica típica de quem acredita que riqueza se cria por lei, e não por trabalho, ignorando que o custo dessa folga será pago pelo próprio consumidor no caixa.
A revelação caiu como um despertar coletivo: o discurso do governo? Seis dias de labuta para um de descanso é coisa de senzala, atraso civilizatório e herança medieval. A jornada 6×1 virou vilão oficial, como se tivesse sido criada ontem por algum capataz de bigode retorcido, e não sustentado — com entusiasmo silencioso — por décadas de conveniência, consumo e hipocrisia.
A narrativa é sedutora: menos dias de trabalho, mais dignidade, mais felicidade, mais tempo para viver. Sempre “mais”. Nunca se explica de onde vem o “mais” quando se tira justamente o que produz. O caixa fecha por mágica, a prateleira se repõe sozinha, o hospital funciona por altruísmo, o transporte coletivo opera por amor ao próximo. O pão chega quente porque alguém, generosamente, acordou cedo — mas não trabalha seis dias, claro.
O fim do 6×1 é vendido, eleitoralmente, como avanço civilizatório, mas soa mais como fuga sem planejamento. Países ricos reduziram jornadas depois de enriquecer, não antes. Aqui, tenta-se inverter a lógica: primeiro o descanso, depois a riqueza — se der. É o milagre econômico versão cochilo. Não se trata de ser contra o bem-estar do colaborador, mas de entender que não existe almoço grátis.
Há também o detalhe inconveniente: quem defende com fervor o fim do 6×1 raramente é quem trabalha nele. O entusiasmo costuma vir de gabinetes climatizados e mesas onde o café nunca esfria. Para o pequeno comerciante, o hospital, o hotel, o transporte e a indústria que não pode simplesmente desligar a chave na sexta-feira, a conversa muda de tom. Vira custo. Vira demissão. Vira informalidade — aquela velha conhecida que ninguém admite ter alimentado.
Para setores que não podem parar, como a gastronomia e a hotelaria, a escala 6×1 é o que garante a viabilidade do atendimento ao público. Ao reduzir a jornada sem uma redução proporcional dos salários e impostos, cria-se uma conta que não fecha. Para cobrir as lacunas de folga, o empresário precisará contratar mais pessoal para realizar a mesma tarefa. No Brasil, o custo de um funcionário vai muito além do salário nominal. FGTS, INSS e provisões de férias/13º sobre novas contratações podem elevar o custo operacional em 15% a 25% de imediato.
O empresário não é um poço sem fundo de capital. Se o custo para manter, por exemplo, uma padaria aberta no sábado e domingo sobe drasticamente, esse valor será repassado ao consumidor final. O resultado é um ciclo inflacionário onde o trabalhador ganha um dia de folga, mas perde o poder de compra, pois o preço do lazer, da alimentação fora de casa e dos serviços básicos subirá para compensar a nova escala.
O Brasil já possui uma das legislações trabalhistas mais complexas e onerosas do mundo. Impor uma restrição de jornada, ainda mais rígida, retira a flexibilidade necessária para momentos de crise ou sazonalidade. Diante da impossibilidade de arcar com os custos de uma escala 5×2 ou 4×3 formal, muitos negócios serão empurrados para a informalidade, precarizando justamente o que se pretende proteger.
Diferente de países desenvolvidos, onde o fim de escalas longas foi acompanhado por um salto de produtividade tecnológica, o Brasil continua com a produtividade estagnada há décadas. Exigir que o empresário pague o mesmo por menos horas trabalhadas, em um ambiente de insegurança jurídica e infraestrutura precária, é punir quem gera riqueza no país.
A visão do setor produtivo é clara: o bem-estar do trabalhador deve ser fruto do crescimento econômico e da eficiência, não de decretos que ignoram a realidade do fluxo de caixa. Sem uma reforma tributária que desonere a folha de pagamento de verdade, o fim da 6×1 será o fim de muitos CNPJs.
No discurso, o trabalhador ganha. Na prática, perde horas, perde renda variável e perde oportunidade, enfim… perde salário. O emprego formal encolhe, o bico cresce, o domingo vira expediente clandestino. Mas o cartaz está bonito, o slogan cabe bem no post, e a sensação de virtude coletiva compensa qualquer estatística.
Não se trata de romantizar o cansaço nem de negar abusos reais. Há setores onde o 6×1 é exploratório, mal remunerado e desumano. Mas atacar o modelo como se fosse a raiz de todos os males é preguiça intelectual. O problema não é trabalhar seis dias. É trabalhar seis dias e continuar pobre. O Brasil não sofre de excesso de trabalho. Sofre de baixa produtividade, educação deficiente, burocracia sufocante e uma elite política que descansa em regime 7×0 — sete dias sem produzir nada relevante. Mas isso não vira pauta. Não rende aplauso fácil.
Extinguir o 6×1 sem discutir salário, produtividade, custo Brasil e competitividade é como trocar o termômetro achando que a febre vai embora. Pode até dar a sensação de alívio. Mas a doença continua — só que agora deitada no sofá, reclamando do cansaço.
(*) Advogado, analista de T.I e Redator chefe do site O Boletim
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