Brasil – um país onde palavras como: vergonha, despudor, caráter e moral só existem no dicionário




Por Taciano Medrado*

Há algo de profundamente errado quando uma sociedade começa a tratar o absurdo como rotina e o escândalo como detalhe administrativo. No Brasil, parece que determinadas palavras foram aposentadas do cotidiano e arquivadas entre as páginas amareladas do dicionário: vergonha, despudor, caráter e moral.

A política nacional transformou-se num espetáculo onde a memória do eleitor é subestimada e a coerência virou artigo de luxo. Discursos inflamados em campanha se dissolvem na primeira conveniência do poder. Alianças antes “inadmissíveis” tornam-se estratégicas da noite para o dia. E o que ontem era crime hediondo, hoje é “narrativa”, “perseguição” ou “interpretação equivocada”.

Nos corredores do Congresso Nacional, acordos são costurados longe dos olhos da população que, por sua vez, paga a conta em silêncio, ou resignação. No Palácio do Planalto, promessas de transformação social frequentemente sucumbem às velhas práticas de barganha política. E no prédio imponente do Supremo Tribunal Federal, decisões que deveriam fortalecer a segurança jurídica muitas vezes alimentam ainda mais a polarização.

O problema, contudo, não reside apenas nas instituições. Ele também habita a cultura da conveniência. A indignação seletiva tornou-se um fenômeno nacional. O erro do adversário é imperdoável; o do aliado, justificável. A ética virou torcida organizada. O julgamento moral depende da camiseta vestida.

Vergonha? Já não constrange.
Despudor? Tornou-se estratégia.
Caráter? Relativizado.
Moral? Flexibilizada conforme a necessidade.

E assim seguimos, entre escândalos que se acumulam como manchetes descartáveis, CPIs que nascem sob holofotes e morrem em relatórios esquecidos, e promessas que se repetem a cada ciclo eleitoral como se o país tivesse amnésia coletiva.

O mais preocupante é a naturalização. Quando o cidadão já não se espanta. Quando o absurdo vira paisagem. Quando o “todo mundo faz” serve de anestesia social.

O Brasil é maior que seus vícios históricos. É maior que seus maus exemplos. Mas continuará refém enquanto a sociedade aceitar que valores fundamentais sejam apenas verbetes acadêmicos, e não práticas cotidianas.

Talvez o dia em que vergonha voltar a constranger, caráter voltar a importar e moral deixar de ser retórica, o país descubra que essas palavras não estavam mortas, estavam apenas esperando que alguém tivesse coragem de resgatá-las.

(*) Professor, psicopedagogo,  analista político e redator chefe do TMNMews o Vale 

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