R$ 18,00 para quem educa, R$ 800 mil para quem milita
Por: Taciano Medrado*
Há decisões políticas que dispensam longas explicações técnicas, discursos rebuscados ou malabarismos retóricos. Elas falam por si. E quando falam, gritam.
O recente contraste entre o reajuste concedido aos professores, um aumento considerado por muitos como mísero, simbólico e desrespeitoso, de apenas R$ 18,00, e a liberação de R$ 800.000,00 em apoio financeiro para produtores do filme “O Agente Secreto”, estrelado por Wagner Moura, ator notoriamente alinhado ideologicamente ao lulopetismo, é um desses casos emblemáticos. Trata-se de uma escolha política que revela, sem pudor, quem é prioridade e quem é figurante no roteiro do poder.
O professor brasileiro, especialmente o da rede pública, não é apenas um profissional mal remunerado. Ele é o retrato vivo do abandono institucional. Trabalha em salas superlotadas, enfrenta violência escolar, sofre com a falta de estrutura mínima, compra material do próprio bolso e ainda é cobrado como se fosse o único responsável pelo fracasso educacional do país. Quando, depois de anos de luta, greves e negociações, o governo anuncia um reajuste que mal paga uma passagem de ônibus ou um café por semana, a mensagem é clara: educar não rende capital político imediato.
Enquanto isso, o cinema “amigo do poder” recebe tapete vermelho. Não se trata aqui de atacar a cultura ou demonizar o audiovisual brasileiro, que merece, sim, políticas públicas sérias e transparentes. O problema está na assimetria moral e política da decisão.
Como justificar, diante de um professor que sobrevive com salário achatado, a liberação de quase um milhão de reais para um projeto cinematográfico estrelado por um ator que nunca escondeu sua militância política a favor do governo de plantão? A pergunta não é retórica, é ética.
Wagner Moura é um ator talentoso? Sem dúvida. O cinema nacional precisa de incentivo? Claro. Mas o Estado não pode agir como patrocinador seletivo de narrativas ideologicamente convenientes, enquanto trata o magistério como um custo incômodo, algo a ser empurrado com migalhas orçamentárias. Quando o governo escolhe investir pesado em produções culturais alinhadas ao seu discurso e, ao mesmo tempo, economiza centavos com quem forma médicos, engenheiros, jornalistas e até cineastas, estamos diante de uma inversão perigosa de valores.
O discurso oficial tenta dourar a pílula: fala-se em “valorização simbólica”, em “ganhos acumulados”, em “responsabilidade fiscal”. Mas o professor não vive de símbolo. Vive de salário. Vive de respeito. Vive de políticas públicas concretas. E R$ 18,00 não é valorização, é deboche institucionalizado. É o tipo de número que, quando anunciado, soa quase como provocação.
Esse contraste revela também um traço recorrente do lulismo: a habilidade de construir narrativas emotivas enquanto opera escolhas pragmáticas que beneficiam seus aliados culturais e políticos. O cinema, nesse contexto, não é apenas arte; é ferramenta de soft power, de construção simbólica, de disputa de imaginário. Já o professor, silencioso e exausto, não rende manchete positiva nem aplauso em festival internacional. Logo, fica em segundo plano.
Há ainda um aspecto simbólico cruel: o professor forma consciências; o filme reforça narrativas. Um constrói o pensamento crítico desde a base; o outro, muitas vezes, o direciona conforme o viés de quem financia. Quando o Estado decide investir mais no segundo do que no primeiro, ele está dizendo muito sobre o tipo de sociedade que pretende moldar, não pela educação, mas pela propaganda.
Não é exagero afirmar que essa decisão alimenta a descrença generalizada na política. O professor, que deveria ser um dos pilares de qualquer projeto sério de nação, sente-se traído. E com razão. Como pedir compromisso, dedicação e excelência a quem recebe, em troca, desprezo orçamentário? Como falar em futuro, inovação e desenvolvimento se o presente da educação é tratado com desdém?
No fim das contas, a comparação entre R$ 18,00 e R$ 800.000,00 não é apenas numérica. Ela é moral, política e simbólica. É o retrato de um governo que prefere aplausos em tapetes vermelhos a respeito nas salas de aula. Que investe pesado em discursos e imagens, mas economiza no essencial. Que diz governar para o povo, mas parece escolher muito bem qual povo merece atenção.
E assim seguimos, num país onde quem ensina vale centavos, e quem milita com boa visibilidade vale centenas de milhares. Uma pedagogia torta, injusta e perigosa, que cobra seu preço não hoje, mas amanhã, quando a conta da ignorância, do atraso e da frustração social chegar. E ela sempre chega.
(*) Professor e redator chefe do TMNews do Vale
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