Por Valter Bernat*
Permitam-me filosofar um pouco sobre o “Resort do Toffoli” Não, legalmente, não é dele, mas é assim que os vizinhos e os funcionários o tratam. É o Resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR).
Dizem que o Brasil é o país do contraste. Do calor ao ar-condicionado, da fila ao acesso VIP, do discurso solene ao chinelo confortável. E, às vezes, o contraste se hospeda num resort. No Brasil, há quem enfrente fila para a sopa e há quem enfrente o pôr do sol com um drink incluso. O resort de Toffoli não é apenas um destino turístico: é um estado de espírito. Um all inclusive institucional, onde tudo está pago por nós — inclusive a segurança reforçada e o silêncio.
O resort de Toffoli surge como uma parte invisível da República. Não é endereço oficial, não é gabinete, mas parece reunir tudo o que um bom gabinete precisa: conforto, discrição e distância segura do burburinho popular.
Ali o tempo corre diferente. As horas não são medidas por sessões plenárias, mas pelo sol que se põe atrás das palmeiras. O barulho não é de martelo batendo, mas de gelo tilintando no copo. A toga, cansada de tanto simbolismo, descansa dobrada na mala, enquanto o hóspede circula leve, como se a Constituição tivesse sido deixada no cofre do seu quarto. Ali a República tira os sapatos. A toga, essa vestimenta exigente, é pendurada com cuidado para não amassar o simbolismo. O ministro não some: ele se recolhe. E recolhimento, como se sabe, é uma forma elegante de ausência.
O resort não consta no Diário Oficial, mas suas despesas aparecem com frequência no Portal de transparência. É o lugar onde a ética entra de férias e o constrangimento tira folga. Não há irregularidades comprovadas, claro — apenas coincidências confortáveis, daquelas que cabem perfeitamente numa suíte com vista para o lago.
Não, as despesas do ministro no resort não são pagas por nós – ele banca – o que nós pagamos é a segurança envolvida. E isso não é barato. Toffoli ficou 168 dias no resort desde 2022 e gastou, dos cofres públicos, cerca de R$ 548,9 mil reais.
Enquanto o país debate moralidade, no resort debate-se o cardápio. Enquanto se fala em liturgia do cargo, a liturgia ali é outra: é o café da manhã tardio; o almoço prolongado e jantares onde as conversas não deixam rastros. Afinal, rastros são inconvenientes, não é? Ali não se discute processos. Discute-se o ponto da carne. Não se fala em jurisprudência. Fala-se do clima, da brisa e da boa vida. Afinal, ninguém é de ferro — e ministros também não o são. São humanos, dizem. E humanos, como se sabe, gostam de resorts.
O cidadão comum, que paga a conta sem direito ao all inclusive, assiste à cena com aquela sensação conhecida: a de que a lei é dura, mas o colchão é macio. Muito macio. E sempre para os mesmos.
Não se trata de crime — seria até mais simples se fosse. Trata-se de algo mais sofisticado: a normalização do privilégio. Um luxo que não afronta, apenas boceja diante da indignação pública. O curioso é que o silêncio ali é mais eloquente que muitos discursos. Não há entrevistas, não há notas oficiais. Só o eco distante da pergunta que ninguém faz em voz alta: até onde vai o descanso e onde começa o símbolo?
O povo, esse hóspede sem convite, observa de longe. Não entra no resort, mas entra na conversa. Porque no Brasil, mesmo quando tudo parece fechado para balanço, sempre sobra alguém olhando pela fresta. E assim o resort segue firme, intacto, quase um personagem coadjuvante da vida pública: não julga, não vota, não decide — mas conforta. Um refúgio onde a República tira férias de si mesma.
Talvez seja isso. Enquanto o país ferve, há lugares onde a água é sempre morna. E onde o descanso, ainda que legítimo, nunca é apenas descanso — é também metáfora. O resort cumpre sua função histórica: lembrar que, no Brasil, o problema raramente está na letra fria da lei. Está no calor gostoso da piscina aquecida, onde tudo parece legal, legítimo e, sobretudo, confortável demais.
Como sempre, não é ilegal mas, é imoral!
(*) Advogado, analista de TI e editor do site O Boletim
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