A queda de Maduro

Imagem: ChatGPT

Por: Valter Bernat*

A ação dos EUA na Venezuela já estava sendo anunciada desde o dia em que Trump colocou um de seus maiores porta-aviões em águas internacionais, impedindo a continuidade do tráfico de drogas de e para aquele país.

A repercussão mundial da Operação Maduro executada pela “Delta Force” me fez fazer uma rápida pesquisa sobre quantas – e em quais – vezes os EUA capturaram ou mataram ditadores em solo estrangeiro.

Em 1901, Emilio Aguinaldo nas Filipinas: líder durante a Guerra Filipino-americana. Capturado em 1901 em uma operação que envolveu soldados disfarçados; em 1945, Hideki Tojo no Japão, Primeiro-ministro e líder militar japonês durante a Segunda Guerra Mundial; em 1989, Manuel Noriega no Panamá: ditador militar, envolvido em tráfico de drogas e corrupção; em 2003, Saddam Hussein, no Iraque: Presidente, capturado pelo Exército dos EUA durante a ocupação em 13 de dezembro de 2003 na operação “Red Dawn”, após meses de busca; e, em 2026, Nicolás Maduro — Venezuela: Presidente da Venezuela, acusado pelos EUA de narcoterrorismo. Capturado por forças especiais americanas em Caracas em uma operação militar surpresa em 3 de janeiro de 2026.

Evidentemente, esta última é o mote deste Editorial.

Para esta captura foi usada a tática de se chamar a atenção para fatos claros, ocultando objetivos reais. O ataque em larga escala, que atingiu três estados e a capital Caracas, visando infraestrutura estratégica, serviu de isca para distrair a atenção das defesas venezuelanas, possibilitando o real ataque da Delta Force à área do complexo militar de Fort Tiuna, onde Maduro e sua esposa estavam.

Maduro sempre foi um ditador cruel, seguidor da filosofia de Hugo Chávez, seu mentor, oprimindo o povo venezuelano de todas as formas, impondo-lhe miséria e fome com uma gravíssima crise econômica, prendendo e torturando líderes oposicionistas, aterrorizando a população com os coletivos paramilitares, calando qualquer resquício de imprensa independente e, mais recentemente, atacando também a liberdade religiosa. Esta mistura de tragédia econômica e perseguição política levou a Venezuela a uma crise humanitária em que mais de 8 milhões de venezuelanos deixaram seu país, rumo ao Brasil, Colômbia, Peru, Chile e Equador.

Fato: Maduro era um governante ilegítimo, um usurpador. A eleição de 2018 foi marcada por inúmeras denúncias de fraude, motivo pela qual várias democracias ocidentais deixaram de reconhecer Maduro como presidente àquela época. Em 2024, fez o possível e o impossível para frear a oposição democrática, mas o povo escolheu Edmundo González; a solução do chavismo foi fraudar a apuração, embora a oposição tivesse boletins de urna suficientes para atestar a vitória de seu candidato, o que foi reconhecido por observadores independentes como o Centro Carter, Maduro ocultou as atas e o Tribunal eleitoral da Venezuela, controlado por ele, declarou a vitória de Maduro.

As diferenças entre EUA e Venezuela têm raízes ideológicas e não começaram com Maduro. Ocorreu com a chegada de Chávez ao poder em 1999, que implementou a revolução bolivariana no país e passou a adotar discurso crítico aos EUA e ao neoliberalismo. Foram quase 30 anos de Chavismo naquele país, só terminando com a morte de Chávez em março de 2013, vítima de um câncer.

Eleições dominadas, resultados duvidosos, não divulgados e com adversários eliminados ou impedidos de concorrer pelo “Tribunal Supremo de Justicia” – o STF venezuelano -, totalmente dominado por Maduro. A reeleição de Maduro, em 2024, é, sem dúvida, o mais notório abuso de poder, onde aliados em altos cargos o mantiveram no poder e o auxiliaram a perseguir opositores, principalmente, a líder Maria Corina Machado – Nobel da paz – e o candidato Edmundo González, exilado e que teria vencido as eleições com mais de 70% dos votos, ocasionando o segredo das atas das urnas de votação.

Problema: Maduro, promoveu mais de 2mil oficiais de seu exército para generais. Só pra termos uma ideia do que isto significa, os EUA, que possuem o maior exército do mundo, têm pouco mais de 650 generais, almirantes e equivalentes nas três Forças. Como estará o espírito das Forças Armadas venezuelanas, com tantos generais recém-promovidos, após esta operação? Desconfia-se que houve alguma parcimônia destas forças, já que não houve resistência e nem contra-ataques à operação americana.

Constitucionalmente, assumiu a presidência a vice-presidente “eleita” Delcy Rodríguez, chavista de carteirinha que, imediatamente, solicitou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para se discutir os “atos de agressão” dos EUA.

Ocorre que este pedido de nada adiantará, já que o regulamento do Conselho de Segurança da ONU diz que entre os membros efetivos deverá haver unanimidade dos membros permanentes – Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido – para exigir uma resposta da ONU, e os EUA, evidentemente, jamais dará a unanimidade requerida.

A posição americana, que Trump já declarou é que “os EUA governarão a Venezuela até que haja condições de fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”. Quem definirá este momento? Como ficará o povo venezuelano? Quem ficará no comando?

Preocupa-me, sobremaneira, o fato de Trump não ter, em momento algum, mencionado González ou Corina. É preocupante, porque minimiza a vontade dos venezuelanos e sua necessidade de liberdade e democracia. Se for assim, estaremos diante de um exercício puro de força que cria precedentes geopolíticos perigosos.

Líderes mundiais se manifestaram. Como era de se esperar, os de esquerda condenaram o ato. Os de direita comemoraram como uma forma de aumento de liberdade. Os de centro falaram apenas protocolarmente. No entanto, alguns pronunciamentos merecem o registro.

A Rússia condenou a operação americana, classificando-a como um ato de agressão armada contra um Estado soberano e uma violação do direito internacional e da soberania venezuelana. Moscou expressou preocupação profunda com a intervenção e os seus pretextos para justificar o ataque. Logo ela que, há três anos, invadiu a Ucrânia.

A China disse estar profundamente chocada e condena fortemente o uso da força pelos EUA contra um Estado soberano e contra o presidente da Venezuela. O governo chinês qualificou a ação como uma violação flagrante do direito internacional, afirmando que ameaça a paz e a segurança na América Latina e no Caribe. Ok, mas e sua luta contra Taiwan? A China reivindica Taiwan como parte de seu território, apesar de a ilha ser governada de forma independente desde 1949.

Cuba classificou a ação dos Estados Unidos como um ataque criminoso e terrorismo de Estado contra a Venezuela. O presidente Miguel Díaz-Canel denunciou o ataque, afirmando que foi uma violação do direito internacional e da soberania venezuelana e que a região, historicamente concebida como uma zona de paz, estava sendo brutalmente atacada.

Surpreendentemente, a França, através de Emmanuel Macron, declarou que o povo venezuelano agora está livre da ditadura de Nicolás Maduro e pode se regozijar por isso. Ele ressaltou que Maduro prejudicou gravemente a dignidade e as liberdades fundamentais do povo venezuelano.

Assim, a captura de Maduro deixa uma dúvida e uma certeza, ambas preocupantes:

A dúvida: o futuro da Venezuela, na ausência de uma definição sobre quem governará o país de agora em diante e de que forma?

A certeza: estaremos voltando ao tempo onde superpotências têm o direito de agir como bem entenderem?

(*) Advogado, analista de TI e editor do site O Boletim

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