“É preciso estancar a sangria!”


Por: Percival Puggina*

Imagine uma bolha cósmica que se tivesse formado no momento na Criação. O Universo e sua bolha. Nele, a energia, a luz, a vida; nela, na bolha, as trevas ainda encobrindo a superfície de seus abismos. De repente, algo lhe perfura o invólucro e ela, forasteira na realidade exterior, passa a ver e sentir o que todos viam e sentiam.

O leitor destas linhas, que é esperto, já entendeu que estou falando da bolha em que, desde 2019, a Rede Globo e suas parceiras no Consórcio Goebbels de Comunicação haviam fixado residência. Passado o primeiro impacto ante a novidade e gravidade de coisas mais do que sabidas, há um corre-corre, um lufa-lufa nas redações. É preciso atualizar o entendimento, reconhecer fatos, interpelar atores. Há uma nova ordem global a estabelecer! Avante companheiros!

É inevitável que alguém tenha feito a pergunta essencial: “Que diabos está acontecendo?”. A resposta então balbuciada numa continuidade que não se dispersa ainda pode ser ouvida: “É preciso estancar a sangria! É preciso estancar a sangria! É preciso estancar a sangria!”. Faz muito sentido, porque se a sangria não cessar, o poder, exangue, não se sustenta.

Essa frase entrou para a história quando a corrupção da Nova República já atingira níveis letais. A palavra sangria, na frase de Romero Jucá em conversa gravada pelo diretor da Transpetro, Sérgio Machado, em 2016, significava “vazamentos que adviriam com a continuidade das delações premiadas na Lava Jato”.

É uma adesão importante, a do Consórcio Goebbels, que já causou desequilíbrio emocional em gente de equilíbrio frouxo. As maltratadas redes sociais e mídias alternativas fazem o que podem, mas nada substitui as grandes máquinas jornalísticas quando algo as obriga a furar a bolha onde se tenham abrigado.

Tudo estaria muito bem se essa ruptura cósmica não correspondesse a uma estratégia de sobrevivência. Afinal, em nosso país, tudo é feito para autenticar este disparate entranhado em mentes paranoides: é dever das instituições de Estado impedir o crescimento da direita política. Não se trata de salvar a esquerda de sua paranoia, mas de salvar a paranoia da esquerda.

Na semana anterior, acompanhei pela TV, dia-a-dia, a caminhada do deputado Nikolas Ferreira rumo à Capital Federal. No domingo dia 25, enquanto assistia aquela multidão chegando à Praça do Cruzeiro, sob e sobre as águas da chuva, tomei emprestado os versos de Paulinho da Viola. Aquilo “foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar”! E lavar.

Por isso, quero submeter uma conduta ao juízo de meus leitores: não aceitemos que se estanque a sangria com algum torniquete enjambrado ou com desajeitado malabarismo jurídico. Nem que nos sirvam algum bode expiatório. A nação quer justiça e nada menos do que Justiça.

(*) Arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras. Escreve, semanalmente, artigos para vários jornais do Rio Grande do Sul, entre eles Zero Hora, além de escrever o seu próprio blog e em outros websites de expressão nacional, a exemplo do Mídia Sem Máscara, Diário do Poder, Tribuna da Internet. Sua coluna é reproduzida por mais de uma centena de jornais.

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