Retrospectiva de final de ano - “Especial da desgraça” e o masoquismo midiático

 


Por: Taciano Medrado*

Todo fim de ano a cena se repete como um ritual quase sádico: emissoras de TV, portais de notícias e redes sociais disputam quem entrega a retrospectiva mais dramática, mais carregada de tragédias, crises e escândalos. É o “especial da desgraça”, embalado com trilha sonora emotiva e imagens selecionadas a dedo para reabrir feridas que mal cicatrizaram. O resultado não é informação: é exaustão.

O problema não está em relembrar os fatos, a memória é essencial para a sociedade. O masoquismo midiático nasce quando a retrospectiva abandona o contexto, a análise e o equilíbrio, e opta pelo choque repetitivo. Tragédias são reprisadas como se fossem entretenimento, crises econômicas viram espetáculo e conflitos políticos são editados para alimentar narrativas convenientes. Tudo isso sob o pretexto de “informar”.

Há também a seleção interessada do que merece ser lembrado e do que deve ser esquecido. Avanços científicos, histórias de superação coletiva, iniciativas que deram certo e políticas públicas eficazes raramente têm o mesmo destaque. O negativo vende mais, gera cliques, audiência e engajamento. O medo e a indignação se transformaram em commodities valiosas no mercado da atenção.

Esse tipo de retrospectiva não convida à reflexão; empurra o público para um estado permanente de pessimismo e impotência. Ao invés de estimular senso crítico, reforça a sensação de que tudo está perdido,  e, por consequência, que nada pode ser feito. É a anestesia da consciência coletiva, disfarçada de jornalismo.

O mais irônico é que, mesmo criticando, o público consome. Reclama, mas assiste. Discorda, mas compartilha. O masoquismo midiático só existe porque encontra audiência disposta a se submeter a ele, ano após ano. Uma relação tóxica, na qual a mídia provoca e o público aceita o papel de vítima.

Talvez esteja na hora de romper esse ciclo. Retrospectivas deveriam servir para compreender o passado, avaliar erros, reconhecer acertos e projetar caminhos futuros,  não para torturar emocionalmente a sociedade com um looping de desgraças. Caso contrário, continuaremos presos a esse espetáculo do sofrimento, chamando de informação aquilo que, na prática, só nos adoece.

(*) Professor e psicopedagogo

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