Por Jane Bernadete Sant´Anna*A boa conversa não escolhe lugar. Às vezes surge onde menos se espera.
A emergência estava cheia. Macas ocupavam os corredores, formando um rio de histórias interrompidas. Entre tantas presenças cansadas, um olhar perdido tocou o meu. A Psicologia ainda era novidade naquele cenário, um ensaio tímido do que, um dia, seria rotina nas UPAs.
Aproximei-me devagar, me identifiquei e ofereci meu silêncio atento. Ele soltou um quase suspiro, desses que parecem abrir uma porta antiga, e começou a se apresentar.
Raimundo. Setenta anos. Filho do sertão baiano. Homem da terra, do trabalho simples, da conversa boa no fim da tarde, da cachacinha dividida entre amigos.
“Sempre tive saúde, pouco precisei de médico.”
Vivera com saúde, com ritmo próprio, com raízes firmes. Até que, num desses dias que mudam tudo, veio a dor. A fraqueza nas pernas. O susto que não avisa.
Na cidade pequena não havia recurso, e assim, em uma ambulância, começou a viagem longa, sacolejante, silenciosa, que dá tempo para pensar a vida inteira.
“Agora estou aqui nesse lugar frio, de cheiro desagradável, quase gosto meio amargo, tomado por passos apressados de gente de branco que olha, mexe e segue. Ninguém me diz nada. Nem parece que sou gente”, confessou, com uma lucidez triste.
Depois sorriu sozinho, dizendo lembrar do compadre cuidadoso que sempre repetia:
“Raimundo, Raimundo, guarda o dinheiro do mingau!”
Levantou os olhos, parecendo querer confirmar um pensamento que envelhecia dentro dele, e me perguntou:
“Agora me diga, doutora… pra que guardar o dinheiro do mingau, se quando a gente fica doente a primeira coisa que enjoa é o mingau?”
Refletindo aquele trecho simples e sábio de Raimundo, percebo o quanto a vida nos alerta sobre a falha de nossas prioridades. Guardamos o “dinheiro do mingau” — nossas reservas, nossas defesas, nossos medos, como se a vida fosse um cálculo exato.
Mas é na fragilidade que descobrimos que muito do que acumulamos não serve para o momento que mais importa.
Talvez a pergunta de Raimundo seja, na verdade, um convite:
o que estamos guardando… e para quê?
Se quiser, posso também adequar o texto para publicação jornalística, crônica, editorial reflexivo ou post de blog/redes sociais, mantendo essa mesma essência.
(*) Psicóloga
Colaborador: João Chaves
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