Em nosso mundo contemporâneo a percepção da realidade tornou-se fragmentária, parcial e volátil. Há uma frase atribuída a Nietzsche que diz: os que dançavam foram considerados insanos por aqueles que não ouviam a música. Aqueles que não conseguem perceber ou compreender o que move os outros muitas vezes os julgam loucos, mas a verdade desta fala permanece, mesmo para quem não a percebe. A limitação da consciência humana nos confronta com a cegueira interpretativa: julgamos o incompleto como se fosse inteiro e definimos o outro a partir de fragmentos que jamais revelam a totalidade.
A parábola dos cegos e o elefante mostra como nossas percepções isoladas conduzem a interpretações divergentes. Cada homem toca uma parte diferente do elefante e acredita conhecer o todo. Um sente a tromba e chama de serpente, outro a perna e diz coluna, outro a cauda e afirma corda, outro o lado e fala em parede. Cada visão tem sua verdade, mas nenhuma captura a totalidade. O erro não está na percepção parcial, mas na convicção de que ela é suficiente para julgar a realidade ou condenar o outro.
Nas redes sociais e na vida cotidiana, essa lógica se intensifica. Fragmentos de informação viralizam e se tornam verdades relativas, reinterpretadas e amplificadas segundo grupos, ideologias ou emoções distintas. Surge a pós-verdade, a multiplicação de interpretações parciais que alimenta hostilidade, intolerância e polarização. Divergir não é mais simplesmente discordar; é expor-se à rejeição e ao ataque. O diálogo se fragmenta, a escuta desaparece e a convivência se reduz a conflito permanente.
O Alienista, de Machado de Assis, oferece uma lente para compreender esse fenômeno. O Dr. Bacamarte busca a normalidade absoluta e transforma seu conhecimento em poder de exclusão. Sua obsessão culmina no delírio e na própria internação. A obra evidencia que a imposição de padrões rígidos de sanidade gera sofrimento e confusão, e que a verdadeira racionalidade exige reconhecer limites, aceitar a multiplicidade e questionar a própria autoridade.
Ler O Alienista hoje é um exercício de autocrítica e reflexão. A sanidade se mede pela capacidade de ouvir, compreender e conviver com perspectivas diferentes, reconhecendo a fragmentada experiência humana. A verdadeira loucura está em acreditar que um fragmento de percepção pode definir toda a realidade ou que o outro seja louco por pensar diferente.
Já li O Alienista e fiz minha autocrítica. E você?
Teobaldo Pedro
Juazeiro-BA
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