A história política do Brasil evidencia que suas grandes transformações raramente nasceram do impulso popular. Desde a independência, proclamada em 1822 às margens do Ipiranga por decisão de um príncipe regente que contrariava ordens de retorno a Portugal, o país se formou sob acordos de elites, preservando privilégios e mantendo o povo à margem. A própria soberania nacional foi adquirida mediante um empréstimo britânico milionário para indenizar Portugal, inaugurando uma relação de dependência e demonstrando que o Brasil começava sua vida institucional subordinado a interesses externos. A participação dos combatentes e das camadas populares foi ignorada, enquanto grupos econômicos, setores do clero e núcleos de poder conduziam o processo.
A República, instaurada em 1889, repetiu o padrão. O golpe liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca derrubou o Império sem consulta ao povo e colocou o país sob controle direto de militares de alta patente. O governo seguinte, de Floriano Peixoto, manteve a mesma lógica de centralização e tutela sobre a vida civil. Quando finalmente um presidente civil assumiu, inaugurou-se a política do café com leite, um acordo oligárquico entre São Paulo e Minas Gerais que controlou a estrutura política e econômica da República Velha. Enquanto isso, milhões de pessoas recém-libertas da escravidão eram abandonadas à própria sorte, sem terra, sem apoio e sem integração social, criando a base de desigualdade que marcaria profundamente os séculos seguintes.
A ausência de políticas estruturais consolidou um enorme contingente de excluídos, vulneráveis à manipulação política. Ao longo dos anos, diferentes grupos ideológicos aprenderam a utilizar essa população como instrumento eleitoral. Em momentos distintos, prometeram segurança, direitos sociais, benefícios ou oportunidades, mas quase sempre reforçando ciclos de dependência. A manipulação se tornou prática recorrente em todos os espectros políticos quando estes alcançam o poder, adaptando o discurso conforme a conveniência e preservando vantagens próprias.
O Brasil permanece uma República frágil, marcada pela presença de águias e raposas que se aproveitam das brechas institucionais, constroem alianças de conveniência e transformam o Estado em extensão de seus interesses. Oferecem pequenas concessões como se fossem grandes avanços, enquanto mantêm estruturas que beneficiam poucos e deixam a maioria à margem. Esse padrão se repete porque ainda há um distanciamento profundo entre a sociedade e o processo político, alimentado por décadas de manipulação partidária e por um sistema que favorece quem já detém influência econômica e institucional.
Apesar disso, o país não está condenado ao fracasso permanente. O futuro da República depende da capacidade do povo de assumir protagonismo, superar narrativas fabricadas e compreender que participação política não se resume ao voto, mas envolve consciência crítica, memória histórica e vigilância constante. Quando a população deixar de ser terreno fértil para manobras ideológicas e passar a construir escolhas informadas e independentes, será possível interromper ciclos antigos e abrir espaço para uma democracia mais sólida, menos tutelada e mais alinhada aos interesses coletivos.
O Brasil segue em travessia. Ainda não concluiu seu projeto republicano e convive com contradições profundas. Mas existe a possibilidade real de transformação, desde que o povo reconheça sua força, compreenda seu papel e rejeite a condição de massa moldada por discursos oportunistas. Somente então será possível afirmar, com verdade, que a República brasileira deu certo.
Teobaldo Pedro
Juazeiro-BA
Importante: Precisamos,
mais do que nunca, da sua ajuda para continuar no ar. Entre nessa luta com a
gente: doe via PIX (20470878568) ou PIX (tgmedra@hotmail.com)
Não
deixe de curtir nossa página www.profesortacianomedrado.com e no Facebook e também Instagram para
acompanhar mais notícias do TMNews do Vale (Blog do professor TM)
Envie
informações e sugestões para o TMNews do Vale
pelo e-mail: tmnewsdovale@gmail.com
AVISO:
Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião
do TMNews do Vale (Blog do professor TM) Qualquer reclamação ou reparação é de
inteira responsabilidade do comentador. É vetada a postagem de conteúdos que
violem a lei e/ ou direitos de terceiros. Comentários postados que não
respeitem os critérios serão excluídos sem prévio aviso.
Postar um comentário