O Brasil da coincidência conveniente



Em menos de 24 horas, o Governo Lula 3 aprova mudança na idade mínima para posse de deputados — e o principal beneficiário é Alvinho Lira, herdeiro político do presidente da Câmara.

Por TMNews do Vale – Editorial

Ah, o Brasil! Essa terra mágica onde as coincidências não só acontecem — elas florescem, dão frutos e ainda são regadas com verba pública. Eis que o presidente Lula sanciona, com a habitual solenidade dos que “não sabiam de nada”, uma lei que, por obra do acaso — claro! — beneficia diretamente o filho de Arthur Lira, o poderoso presidente da Câmara. Tudo isso em menos de 24 horas. É ou não é uma coincidência digna de registro no Guinness Book da política brasileira?

O presidente Lula sancionou nesta sexta-feira (3) a Lei 15.230, que redefine a regra da idade mínima exigida para elegibilidade. A proposta foi aprovada no Senado na quarta (1º) e na Câmara na quinta (2), sendo sancionada por Lula menos de 24 horas depois. A lei, que já está em vigor, faz uma pequena alteração na medição da idade mínima que deputados federais e senadores precisam ter para tomar posse. Antes, deputados federais eleitos precisavam ter no mínimo 21 anos até a data da posse; senadores, 35 anos no mesmo prazo.

Com a nova lei, a medição da idade é feita em até 90 dias após a posse da mesa diretora dessas casas, o que normalmente acontece em 1º de fevereiro. Na prática, a medição de idade ocorre até o final do mês de abril do ano em que ocorrer a posse. A nova regra beneficia diretamente o filho do deputado Arthur Lira, Alvinho Lira. Considerado o herdeiro político do pai e sucessor natural de sua vaga na Câmara dos Deputados, pela regra anterior Alvinho não poderia tomar posse, já que teria apenas 20 anos em fevereiro de 2027. Com a nova lei, se for eleito em 2026, Alvinho toma posse normalmente como deputado federal, já que completa 21 anos em 27 de março — bem antes do prazo final exigido.

A inclusão da regra da idade mínima foi um “jabuti” — termo usado em Brasília para designar aquelas emendas enfiadas sorrateiramente em projetos de lei que tratam de outro tema. No caso, o “jabuti” foi plantado numa lei que falava sobre acessibilidade de panfletos eleitorais em braile. Nos bastidores, comenta-se que a alteração teria sido um pedido do próprio Arthur Lira, que pretende disputar o Senado em 2026 e, portanto, quer deixar o caminho livre para o filho herdar o trono legislativo.

A pressa foi tanta que parece que a caneta presidencial estava com bateria fraca: sancionou antes que alguém perguntasse “mas quem ganha com isso?”. E quando descobriram que o beneficiado é o rebento do todo-poderoso Lira, o país já estava diante de mais um capítulo da novela “Toma lá, dá cá”. O enredo é velho, mas o elenco se renova com entusiasmo digno de Oscar.

O discurso oficial, claro, é o de sempre: “a lei é para o bem do povo”. Só que esse “povo” parece ter CPF e sobrenome influente. O brasileiro comum, aquele que enfrenta fila no SUS e sobrevive com salário mínimo, deve estar se perguntando se um dia também será “beneficiado” por alguma dessas leis relâmpago — ou se continuará sendo apenas figurante nessa tragicomédia institucional.

Mas calma, nada de pensar mal. No Brasil, nada é o que parece — só parece o que convém. O governo jura que não há favorecimento, que é tudo técnico, tudo dentro da legalidade. E talvez seja mesmo: a imoralidade, aqui, aprendeu a andar de mãos dadas com a legalidade.

Enquanto isso, o país segue seu curso, entre a indignação e a resignação, assistindo à velha política vestir a fantasia da nova. Lula sanciona, Lira sorri, o filho agradece — e o povo paga. Tudo dentro da mais perfeita harmonia democrática.

🧩 Moral da história: No Brasil, lei boa é aquela que nasce ontem, entra em vigor hoje e beneficia “coincidentemente” os amigos do poder. Coincidência? Talvez. Mas a esperteza, essa sim, é hereditária.

🗞️ Nota TMNews do Vale

A Lei 15.230/2025 foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em tempo recorde e publicada no Diário Oficial da União. A alteração na regra de idade mínima para posse de deputados e senadores foi inserida durante a tramitação no Senado, sem relação direta com o tema original do projeto — a acessibilidade de materiais eleitorais em braile. A nova norma, já apelidada de “Lei Alvinho”, reacendeu o debate sobre o uso político de “jabutis” legislativos e a relação entre o Executivo e o presidente da Câmara, Arthur Lira, em pleno período pré-eleitoral.

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✍️ Redação: Taciano Medrado

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