Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, completará setenta anos em 2026



Talvez não convenha intitular comentários para uma seção sobre literatura com sinal de interrogação.

Corre-se o risco de transformar alguma ilusão de certitude em concreta dúvida, induzindo eventuais leitores a supor que o colunista não está totalmente seguro do que mais e melhor dizer. Entretanto, como logo se verá, a matéria deste brevíssimo artigo é muito maior que as primeiras impressões e as rematadas certezas. Pois “mire veja”.

Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, completará setenta anos em 2026. Romance arrebatador (da primeira à última linha), durante centenas de páginas a narrativa é conduzida por Riobaldo – sujeito que foi jagunço, chefe de bando e, no momento da enunciação, dono de terras casado com Otacília. Eis um tipo complexo, cuja fala está a meio caminho entre a inquietude e a aparente acomodação. Afastado das sinuosas trilhas onde presenciou e protagonizou vultosas façanhas, ele reconta lances notáveis de sua trajetória, e de tantos outros, enfileirando “causos” em tom de conversação que tematizam sobre amores, pelejas, metafísicas, paisagens, bichos, plantas etc.

O teor das histórias adere ao discurso denso e eloquente de um contador que estimula nossa sensibilidade e reflexão, a começar pelo caráter dual expresso pelo seu nome. Se ele discorre feito Rio volumoso (o que se depreende da extensão do relato e do modo como os episódios estão conectados, num mesmo plano-leito narrativo), em contrapartida, baldo é predicado que sugere carência de algo ou de alguém – o que nos levaria a especular se o nome [Rio+baldo] traduziria uma longa fala resultante da principal falta, não compreendida, nem superada, pelo narrador.

Esse contador age feito prestidigitador: simula antever nossa reação frente ao que relata e deduz. Seria por gosto de diversão? Resultaria de mero jogo de cena? Em Grande Sertão: Veredas, o pacto ficcional demanda imaginar que estamos em sua presença, n’algum lugar “encantoável” (como diz o narrador do conto “Famigerado”) de Minas Gerais. É da perspectiva desse fabulador que “escutamos” as tantas vozes que povoam o seu relato: a sabedoria do compadre Quelemém, o destemor de Hermógenes, a condição dúplice de Diadorim… Por sinal, também é nas lições extraídas da experiência que as ambiguidades de Riobaldo residem.

A questão se complexifica, quando levamos em conta as camadas semânticas embutidas nos juízos provisórios que o protagonista emite sobre as coisas e acontecimentos, ou nas assertivas em contorno de semipergunta, semeadas por um orador ambivalente. Nessa obra monumental, o pacto de leitura se constrói e se escora nas ambiguidades. Riobaldo se dirige a nós como se estívessemos, desde sempre, na condição predeterminada de “ouvintes” compulsórios – cláusula concretizada no modo como o narrador virgula seu monologar: “O senhor ri certas risadas…”; “O senhor tolere, isto é o sertão”; “Mas, o senhor entenda”; “Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia”.

Homem ambíguo no discorrer e no agir, Riobaldo transforma o leitor ora em confidente, ora em cúmplice; ora o enaltece, ora o rebaixa, o que apenas reforça as múltiplas direções do que enuncia. De um lado, poderíamos supor que as fórmulas de tratamento que ele emprega explicitariam a elevada consideração que tem para com seu interlocutor/leitor. Nesse sentido, o extenso relato cumpriria os preceitos do decoro – conceito basilar encontrado na obra de historiadores, filósofos e poetas desde a Antiguidade, e que vigora, ainda hoje, em meio a outros códigos e práticas.

À primeira vista, o discurso de Riobaldo seria decoroso porque conveniente, adequado, proporcional ao tom prazenteiro – mas também dificultoso – com que admite suas dúvidas, acertos e faltas. Contudo, a cortesia desse habilidoso contador de causos pode ressoar como artimanha: provocação dirigida especialmente a quem se considera douto, cultivado ou bem-sabido. Quase tudo está colocado em questão, inclusive a natureza, o teor e a forma do relato: “Que-Diga? Doideira. A fantasiação”.

Na ficção de Guimarães Rosa, essência e aparência dividem o território da palavra de modo tão renhido quanto os jangunços disputam a chefia do bando. As memórias pregam peça no narrador? Ou é a (in)exatidão delas que entorta a percepção do leitor? “O senhor ache e não ache. Tudo é e não é…”. As consequências estão mais ou menos dentro do (im)previsto: “eu sei que o senhor vai discutir”, mas, se permite a ousadia de quem tenta ensinar literatura, retire da estante aquele livro volumoso (mais pro lado… esse mesmo!), apronte boa xícara de café e escute, atentamente, o que Riobaldo tem a desdizer.

Por Jean Pierre Chauvin, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP e reproduzidas na REDEGN são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo e também da REDEGN.opinião.)

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